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Jia e suas histórias de violência

O mais destacado autor da China conta como recolheu a essência do rigoroso ‘Um Toque de Pecado’ na internet

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 15h33

Conta o The Guardian, de Londres, que o hoje poderoso presidente da China, Xi Jinping, se sentou ao lado de um diplomata ocidental, durante uma recepção, e puxou conversa sobre filmes. Disse que não era fã do cinema de Zhang Yimou. Preferia o de Jia Zhang-ke, filmes como Em Busca da Vida. Em maio, em Cannes, o próprio Jia, numa conversa com o repórter, talvez não soubesse disso. Ele admitiu que o roteiro de A Touch of Sin que enviou à comissão que rege o cinema na China não foi o que filmou. Achava que o filme teria as mesmas dificuldades de circulação de seus precedentes. Film Comment, na edição de setembro/outubro, anuncia que, pela primeira vez, um filme de Jia foi liberado com pequenas mudanças.

Se isso for verdade, será uma revolução e tanto para o diretor de 43 anos, o mais destacado autor de sua geração. Jia é amigo da Mostra. Já veio aqui, exibiu seus filmes, ganhou prêmios. Depois de vários documentários, ou ‘híbridos’, volta à ficção. A origem de Um Toque de Pecado está no Twitter ou nos microblogs com que os chineses têm feito circular as informações do mundo real, driblando a censura do regime – que se capitalizou, mas manteve o feroz controle da informação do comunismo.

Jia trabalhava num projeto de filme sobre artes marciais quando viu na rede as informações sobre explosões de violência na China. Ele coletou alguns dos casos e os ficcionalizou. Ao repórter, explicou – “As histórias envolviam denúncias de corrupção, de abuso, de poluição industrial, de disputas por terras. Na maioria dos casos, provocavam tragédias.” Sem ter a quem se queixar, numa sociedade hoje voltada para o lucro – como no passado se voltava para o coletivismo –, o chinês comum extravasa sua revolta por meio de atos de violência.

Não são manifestações coletivas, como as que os black blocs têm levado às ruas do Brasil. “Comecei a me dar conta de que havia um problema de violência individual na sociedade. Desamparados, homens e mulheres reagem como podem. O que constato é que o povo chinês não sabe lidar com a violência, pelo simples fato de que nunca houve uma discussão sobre ela.” Ao coletar quatro histórias recolhidas pela internet, Jia, de alguma forma acha que fez seu filme de artes marciais - “Elas (as histórias) estão no espírito dos wuxia (filmes marciais) do passado, com a diferença de que se passam na China contemporânea.” Um mineiro parte para o confronto à bala com o dono das minas, o trabalhador da fábrica reage contra companhia que vende produtos da Apple, uma mulher reage contra os machos que abusam dela numa casa de massagem etc. Apesar da base real e da urgência que as histórias passam, a mise-en-scène é elaborada, e refinada. E Jia dirige de novo sua mulher, Zhao Tao. É um dos grandes (o maior?) filme desta Mostra.

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