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Jessica Chastain: ‘A única maneira de mudar algo é não ignorá-lo’

Uma das atrizes que denunciou o produtor Harvey Weinstein fala do pavor no início do caso e do novo filme que estrela, ‘A Grande Jogada'

Cara Buckley/The New York Times, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2017 | 06h00

Jessica Chastain recebeu a notícia de sua indicação ao Globo de Ouro para a melhor atriz em um longa metragem dramático ao mesmo tempo em que promovia o filme, A Grande Jogada, em Paris. Dirigido por Aaron Sorkin, conta a verdadeira história de Molly Bloom, uma esquiadora de categoria mundial que começou a promover jogos de pôquer de apostas elevadas, que atraia celebridades. Entrevistada por telefone pouco antes de embarcar para Amsterdã, Chastain disse que sua indicação para o Globo foi especialmente gratificante, porque ela havia comentado sem rodeios as recentes acusações de assédio sexual e temia que isso gerasse repercussões na indústria.

Esta é a sua quinta nomeação ao Globo de Ouro. Você se sente uma veterana?

De forma alguma. O primeiro, acho, foi para a cerimônia de 2012, por Histórias Cruzadas (The Help). Lutei durante muito tempo para tentar criar uma carreira. Ter cinco indicações em tão curto período de tempo, é realmente chocante e mais do que jamais esperei. Sinto apenas muita gratidão e felicidade.

A Grande Jogada é um filme de Aaron Sorkin com quilômetros de diálogos. Foi assustador?

Sinto que tudo o que já havia feito me deixou preparada. Isso é um sonho para uma atriz. Não é normal que um filme realmente dependa do que diz uma personagem feminina. Compreendi a importância disso. Compreendi a importância de fazer um filme de Aaron Sorkin. Ele é um cineasta político. Este é um filme sobre política de gênero, patriarcado. Você vê isso no pai de Molly, na sua família, em sua indústria e no governo. Era um problema há 50 anos e agora porque está nos jornais, todos estão interessados. Sempre me interessou o que as mulheres fazem para navegar pelo patriarcado. Para mim, Aaron sempre foi um cineasta com senso de justiça e idealismo. Ao receber esse roteiro, vi que era algo pelo qual estava esperando por toda a minha vida, para poder cravar meus dentes em uma personagem feminina como essa.

Como você se preparou?

Eu queria ser perfeita para filmar com Aaron Sorkin. Tive muito trabalho para elaborar Molly, ela é muito diferente de mim e um ser muito sensual. Não me vejo dessa maneira. Passei muito tempo conversando com ela e observando como se apresenta ao mundo. Conversei com jogadores que participaram do seu jogo; fui a um jogo em Nova York para observar como é a sala. Havia mulheres andando ao redor e massageando homens e levando torta de maçã ou sopa de frango com macarrão se os caras tivessem fome.

Por sensual você fala do estilo sedutor das estrelas de filmes dos anos 1950?

Vivemos em uma sociedade que valoriza as mulheres pelo desejo sexual que elas despertam. No início do filme, muitos homens dizem a Molly que ela precisa mudar sua aparência. Dizem a ela que seu vestido é feio e deve comprar sapatos novos. Molly foi obrigada a colocar essa máscara, desse ser ultra sexual. Isso para que os rapazes a escutassem, a reconhecessem, a enxergassem. Ela de certa forma tornou-se um objeto. E o que eu mais gostei foi o fato de jamais me sentir um objeto na história. Foi a primeira vez que trabalhei com uma. Aaron disse desde o início que não queria que o filme tivesse um olhar masculino, porque é a história de Molly. Na primeira vez que fui ao set, usando aqueles tipos de roupas, senti estar no controle no meu próprio corpo.

Você foi bem explícita quanto aos escândalos de assédio sexual, e você também experimentou alguma retaliação. Você pode falar sobre isso?

Para ser honesta, estou basicamente surpresa pela minha indicação. Como atriz, tenho muito medo, pensando que se eu disser o que realmente penso, ou algo que pareça desviar-se da norma como mulher, será que eu vou acabar desaparecendo na indústria? Quando o artigo saiu sobre (Harvey) Weinstein, eu imediatamente comecei a tuitar. Tenho um bom grupo de amigas no WhatsApp, e eu disse: “Estou apavorada, posso estar destruindo minha carreira agora. Pergunto-me se as pessoas ainda vão me ver como uma atriz e querem trabalhar comigo ao saber que tenho essas opiniões”. Da mesma forma como só as boas amigas o fazem, elas ajudaram-me a eliminar o medo e a entender que a única maneira de mudar uma coisa errada é mudá-la, não ignorar. E ao invés de dizer que é uma questão de todo o setor, é mais do que isso. É uma questão de toda a sociedade. Não podemos ignorar trabalhadores agrícolas ou mulheres que ficaram invisíveis. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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