Brad Swonetz|The New York Times
Brad Swonetz|The New York Times

Jerry Lewis fala de seu personagem no drama 'Max Rose'

Aos 90 anos, lendário ator ficou famoso por comédias como 'O Professor Aloprado'

Ruth La Ferla, NEW YORK TIMES

21 de setembro de 2016 | 19h00

LAS VEGAS - Às vezes, não dava para ouvir suas palavras por causa do barulho que faziam os cinco Chihuahuas a seus pés, mas, quando Jerry Lewis tem algo a dizer, pode ter certeza de que vai ser ouvido. “Uma coisa maravilhosa ocorre com o passar do tempo. Você se apaixona pelo som da própria voz”, disse ele, com Lola, a menor integrante de seu grupo de cãezinhos hiperagitados, aninhada ao peito.

Aos 90 anos, Lewis, como sempre, exercita essa voz. Extremamente autoconsciente e aproveitando um improvável renascimento de carreira, ele concedeu uma entrevista em sua casa, sem a mínima intenção de medir suas palavras, muitas vezes com reflexões sem filtro.

Havia acabado de chegar a seu escritório, revestido de painéis de madeira, na parte de trás da imensa residência neocolonial de dois andares, ambiente onde planeja seus projetos e que é um santuário de sua carreira lendária. As recordações ocupam todas as prateleiras, paredes e parapeitos disponíveis. Ficou de pé, acenando para os cães, o fotógrafo e Sam, a mulher de 38 anos, antes de se instalar à mesa de mogno maciço.

Estávamos ali para falar sobre seu projeto mais recente: Max Rose, retrato de um pianista de jazz em seus últimos anos de vida que foi lançado em setembro. Elogiado por sua atuação como um homem confinado em uma casa de repouso após a morte da mulher (Claire Bloom), Lewis, como Max, sofre calado; seu rosto, uma máscara de tristeza e raiva, de tempos em tempos, se ilumina com um ânimo inesperado.

Ao assistir a essa reflexão sobre perda e resiliência, fica difícil não procurar paralelos entre o ator e o personagem-título. “Estou tendo alguns probleminhas agora que cheguei aos 90 anos. Nessa idade, já não ando tão bem, meus olhos estão falhando, não consigo ouvir direito e estou recebendo pagamentos da retransmissão de meus filmes dos anos 1990”, disse Lewis.

Lewis, apresentador de longa data do Teleton anual da Associação de Distrofia Muscular e veterano de mais de 50 filmes – entre eles o monumental O Professor Aloprado (1963) –, é um emaranhado de contradições e sabe disso. Algumas vezes, é evasivo; outras, direto, alternadamente distante e afável, sombrio e brincalhão.

Ele ainda está maravilhado por ter tido a chance de atuar ao lado de Claire Bloom. Agora, bancando o devasso, Lewis lembrou: “Fizemos uma cena com Claire na cama. Foi muito divertido”. Ele riu alto. “E isso porque não fizemos nada.” O relacionamento do filme se baseia um pouco no de Lewis e sua mulher? De jeito nenhum, disse ele. Mas Mommy, como ele a chama, esteve por perto, graciosa, durante toda a entrevista, às vezes, acalmando, persuadindo e provocando espirituosamente. Em uma determinada hora, ela se aproximou e tirou Lola do colo do marido. “Para onde está levando minha cachorrinha?”, perguntou ele. “Faça sua entrevista, Jerry”, respondeu ela, com um aceno para o fotógrafo, que preparava um close-up. “Talvez ele queira algumas fotos sem o cachorro.”

“De repente você virou produtora, hein”, disse Lewis. Momentos antes ele falara sobre os cães. “Uma luz no meu coração”, como os chama. “Eles me dão mais alegria e prazer do que qualquer ser humano que já conheci.” Com essa observação momentaneamente esquecida, ele olhou para a mulher. “Ela é o amor da minha vida”, disse, e não parecia haver razão para duvidar disso. “Muita gente tem vergonha de admitir que há outro ser humano que os controla, que faz o coração bater mais rápido, porque você se entregou a ela.”

Enquanto falava, seus olhos varriam a sala, parando em lembranças de seu passado: os volumes encadernados em couro de Dean and Me (A Love Story), sobre sua parceria com Dean Martin, que terminou em 1956. (Os dois se reuniram algumas outras vezes.) Há um retrato com moldura de prata de Danielle, sua filha, quando criança. Ela agora está com 24 anos e é a última da prole. (Ele tem seis filhos de um casamento anterior. O mais novo, Joseph, cometeu suicídio aos 45 anos, em 2009.) Um palhaço de porcelana sentado à mesa de maquiagem parece ser um dos favoritos. “O artista fez 14 dessas peças com minha imagem e vendeu-os muito bem”, disse Lewis, adicionando secamente: “As pessoas querem lembranças. Eles querem expressar sua reverência”.

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