Jeremy Northam, o lorde de Hollywood

O nome de Jeremy Northam é um dos primeiros a passar pela cabeça de cineastas e produtores quando o roteiro pede um ator com pinta de lorde inglês. Graças ao porte aristocrático, ao legítimo sotaque britânico e à afabilidade típica de um gentleman, Northam roda um épico atrás do outro. A lista inclui Emma, O Marido Ideal, O Cadete Winslow, The Golden Bowl, Assassinato em Gosford Park, Enigma e, mais recentemente, Possessão. Neste último, com estréia nesta sexta-feira nas telas brasileiras, o ator confere elegância e requinte a um poeta laureado pela rainha Vitória."Confesso estar um pouco cansado de vestir figurinos de época nos sets de filmagem. Mas o que posso fazer? Os diretores adoram me obrigar a usar colarinhos apertados", brincou o ator de 40 anos, nascido em Cambridge. Com personagens no currículo inspirados na obra de Jane Austen, Oscar Wilde e Terence Rattigan, Northam não sabe explicar como se especializou em encarnar homens de séculos passados. "Não gosto de trajes de gala. Estou sempre de jeans, camiseta e tênis", contou o ator, em entrevista à Agência Estado, concedida em Berlim.Northam interpreta em Possessão o poeta Randolph Henry Ash, que teria sido o amante da escritora Christabel LaMotte (Jennifer Ehle) no século 19. Baseada no romance homônimo de A.S Byatt, a trama é ambientada no presente, quando dois estudantes (vividos por Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart) tentam provar o tal romance secreto, resgatando as cartas de amor que os autores teriam trocado. "Como o personagem Randolph é fictício, eu o vi como uma amálgama de vários poetas verídicos", disse Northam, visto na produção apenas em flashbacks.Conforme a pesquisa dos estudantes avança nesse filme dirigido por Neil LaBute, os personagens contemporâneos estabelecem uma inesperada ligação romântica, descobrindo ter muito em comum com os escritores do passado. "Trata-se de uma história de amor com um quê de filme de detetive", afirmou Northam, quase sempre escalado para papéis românticos em produções de época. "Costumo dizer que, em vez de ser um bom ator, sou um bom reator nessas circunstâncias." Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.Com tantos convites para atuar em épicos, sente-se aprisionado no gênero?Jeremy Northam - Um pouco, já que na maioria das vezes sou lembrado para esses papéis. Mas o que me deixa frustrado mesmo é perceber que muitos diretores de épicos prestam atenção demais na reconstituição do período. De tão preocupados com os interiores e os detalhes, acabam deixando para segundo plano o que acontece na cena. Não estou me referindo a Neil LaBute, Robert Altman ou David Mamet. Mas já trabalhei com outros que se arriscaram no gênero atraídos apenas pelas aparências. Quando isso acontece, a platéia mal consegue se concentrar na história. Há distração demais.Como Neil LaBute, mais conhecido pelas tramas contemporâneas e pelos personagens frustrados sexualmente (como em "Na Companhia de Homens" e "Seus Amigos, Seus Vizinhos"), conseguiu convencê-lo a fazer mais um épico?Justamente por ele ser um estranho no ninho eu me interessei. Mas confesso que, assim que começamos a trabalhar no filme, percebi que a temática era familiar ao diretor - independentemente de a trama se passar em outro século. LaBute sempre lida com relacionamentos, principalmente no que diz respeito à dificuldade que homens e mulheres têm para entender o sexo oposto. O fato de LaBute ser um diretor pouco convencional também pesou na hora de aceitar o papel.Como foi reencontrar Gwyneth Paltrow, com quem você fez par romântico em "Emma"? Ou vocês não se viram no set, já que seus personagens nunca contracenam?Infelizmente como não tínhamos cenas juntos, não nos encontramos. Desta vez, o tempo nos separou (risos). Mas é curioso notar a conexão entre os dois casais, mesmo estando em diferentes séculos. Quando o poeta e a escritora se encontram no passado, o espectador não sabe se aquilo aconteceu mesmo ou se os personagens contemporâneos estão apenas imaginando.Você promete quebrar a imagem de cavalheiro romântico em seu próximo filme, "Cypher", interpretando um espião.É verdade. Depois de tantos épicos, finalmente me chamaram para fazer o oposto: um filme de ficção científica. Trata-se de um thriller paranóico, em que o meu personagem é um executivo recrutado para trabalhar como espião. Mas, quando ele pensa que pode bancar o James Bond, é envolvido em trama misteriosa que inclui lavagem cerebral e pesadelos. Quem tenta abrir os seus olhos é a personagem de Lucy Liu (de As Panteras), alertando-o de que "nada é o que parece ser"."Cypher" desmente o que você disse certa vez, que só esperaria de Hollywood convites para viver lordes ou vilões. O que mudou?Talvez a indústria e o público estejam se esforçando mais para ver o que você tenta atingir com um personagem. Em vez de simplesmente assumir que você é a pessoa que eles estão acostumados a ver na tela. Entre um épico e outro, eu tento mostrar outras facetas, como em Happy Texas, em que interpretei um personagem americano. Isso já foi um avanço, considerando que Hollywood tende a convidar os ingleses para viver os tipos refinados ou os vilões, como aconteceu comigo em A Rede (em que Northam aterrorizou a personagem de Sandra Bullock).Algum outro épico à vista?Também estou no elenco do inédito The Singing Detective, versão cinematográfica da série de televisão da BBC. Não é um épico propriamente dito, já que o filme se passa no presente. Só que existem vários níveis narrativos, principalmente quando o protagonista (vivido por Robert Downey Jr.) tem alucinações ou relembra o passado. Mas tudo é épico, se eu lembrar o que me disse um amigo, o cineasta David Mamet, quando nós filmávamos O Cadete Winslow. Para ele, todos os filmes são de época, na medida em que o roteiro foi escrito ontem e as tramas retratam situações que já aconteceram, pelo menos no papel. Talvez ele tenha razão.

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