Jeitinho mineiro marca trajetória dos Alcântara

São Paulo - Alcântara não é o sobrenome de todo mundo na Família Alcântara. É somente o nome de um dos antepassados, Pedro Domingo Alcântara, mas foi adotado para denominar todo o trabalho artístico da família. Ainda assim, Pedro não era também o nome original deste Alcântara - ele pegou o nome do imperador do Brasil em homenagem àquele que deu alforria a todos os escravos no País. Esse Pedro era o pai de Cassemira Thomé - a "arquivista" Nini -, e Pedro Antônio Thomé - o maestro do coral. E este senhor, que deixou viúva Dona Mena - a rainha perpétua do congado -, foi o responsável também pela fundação do coral do grupo há 36 anos. É assim, de geração em geração, de pouquinho em pouquinho, que vão se ramificando os galhos da genealogia dos Alcântara.Tudo teve início por volta de 1760, quando os primeiros Alcântara foram trazidos de uma tribo angolana chamada Wasili, que era localizada pouco abaixo de onde hoje fica a capital Luanda. Estes escravos, de etnia banto, chegaram à Minas Gerais para trabalhar principalmente na lavoura e em engenhos de cana-de-açucar. "Felizmente, eles se ligaram à lavoura, e não à mineração, que era uma atividade muito mais bruta naquelas terras", diz o diretor Daniel Solá Santiago. Segundo o diretor, isso deve ter colaborado bastante para que eles mantivessem algumas tradições essencialmente alegres e festivas. "E aquela coisa come-quieto do mineiro, essa localização geográfica, colaborou um pouco para essa manutenção", diz.Entre essas tradições que conservaram está o teatro. "Desde aquela época nossa família fazia encenações para a família do senhor do engenho, nos natais. Nossos antepassados encenavam a morte e ressurreição de Cristo", conta Nini. Dessa época, também, começa a afinidade da família com a religião católica. Apesar da congada ter suas origens no candomblé, a festa praticada em Minas transformou-se naturalmente nos cortejos de devotos à Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Ifigênia. "O barroco mineiro ajudou, mas a homenagem dirigida aos santos continua a se referir aos antepassados do Congo e de Angola", diz Marcelo Manzatti, do grupo Cachuera!, que pesquisa cultura folclórica dos sudeste brasileiro. As congadas no interior mineiro datam de 1780, e desde aquela época os Alcântara buscavam aceitação dentro das igrejas da região. Porém, a permissão oficial como manifestação da liturgia católica é mais recente, de 20 anos atrás. A congada é, basicamente, uma evolução da guarda que protege o rei e a rainha do Congo até sua coroação, celebrada numa missa dentro da igreja. A festa acontece na rua, no caminho da casa dos reis até a igreja, e inclui várias danças e cânticos, muitas vezes pedindo ao "kalunga" (mar) que leve as "andorinhas" (escravos) de volta para a África. Paulo Dias, o fundador do grupo Cachuera!, acrescenta que os cantos também comentam "o dia-a-dia dos negros no Brasil, suas lutas e revoltas. Usam roupa branca, saiote e capacete adornado de fitas e espelhos. Os instrumentos são as caixas, sanfona, pandeiro e reco-reco, além do tamborim do capitão" - que é quem conduz a guarda.Chico Rei - O sofrimento dos Alcântara começa a se atenuar com a vinda de um outro integrante da família para o Brasil, pouco após o início das congadas por aqui, que ficou conhecido como Chico Rei. "Chico Rei encontrou uma mina de ouro e ficou na sua, cultivando suas pepitas. Comprou sua liberdade e começou a viajar, encontrando seus parentes pelas Minas Gerais. Assim, ele foi comprando a liberdade do povo que encontrava, e instituiu o reino do Congo aqui, com o nome de Quilombo de Caxambu", conta Santiago. Mas não foram todos os integrantes da família que conseguiram chegar ao quilombo. Muitos continuaram com as famílias, e se estenderam num regime escravocata até a primeira metade deste século. "Depois da abolição muitos negros perderam o rumo. Alguns acabaram sendo induzidos ao comércio pelos seus antigos senhores, mas eram obrigados a assinar papéis, ainda que fossem analfabetos, e muitos desses contratos eram hipotecas dos próprios bens que comercializavam", explica Santiago. Para pagarem suas dívidas, muitos voltavam a trabalhar a troco de nada para seus antigos senhores. Muita gente continuou nessa situação até a década de 50. "Fui eu quem paguei todas as dívidas que ainda restavam da família, anos atrás", declara Nini.Raízes - Todas estas histórias são contadas pela Família Alcântara em suas peças de teatro, chamadas de Raízes. São montagens alegres, que envolvem quase todo o núcleo da família, e são recortadas do começo ao fim pelas músicas do coral. Todo mundo da família tem um papel, dos mais velhos às crianças. A prematuridade é também expressa no coral, pois a maioria das crianças da família aprende a cantar antes mesmo de falar. "É por causa do convívio. O dia todo a família está cantando, seja no trabalho, seja no repouso, sempre. É inevitável que os menores incorporem estes sons antes mesmo da fala", explica Santiago.A montagem de Raízes foi dividida em três partes. Na primeira, conta-se a trajetória da família da África até aqui. Na segunda, o trabalho escravo da família no Brasil até a abolição. Na terceira parte a família narra sua liberdade e as mudanças no trabalho. Uma quarta parte está em andamento, e mostrará a família no cotidiano atual. Para as apresentações, detalhes étnicos ou nomes são somente referências para as performances dramáticas ou musicais. Isso porque alguns dos dados dessas histórias, como nomes e procedências étnicas, são frutos recentes da pesquisa de Manzatti e de padre africano Justino - o principal mentor da família, que chegou ao Brasil em 1997 como missionário da Congregação do Imaculado Coração de Maria. Padre Justino veio cuidar de uma paróquia em Itabira, mas emocionou-se ao encontrar uma cultura tão semelhante a de sua terra natal aqui no Brasil, e começou a se dedicar numa busca histórica sobre a família Alcântara.

Agencia Estado,

23 de julho de 2000 | 16h26

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