ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Jean-Claude Bernadet atua com João Miguel no filme 'Periscópio'

Carreira de ator ajudou o crítico a combater período de depressão

Amilton Pinheiro , ESPECIAL PARA O ESTADO

08 de setembro de 2015 | 04h00

Quando Jean-Claude Bernardet esteve pela primeira vez diante de uma câmera como ator foi em Orgia ou o Homem Que Deu Cria (1970), único filme do escritor João Silvério Trevisan, representante do Cinema Marginal e que foi censurado pela ditadura militar. Bernardet não imaginava que esse ofício se tornaria, quase quarenta anos depois, na sua principal atividade profissional e daria outros sentidos para a própria vida. No filme de Trevisan, ele aparecia em um único plano, interpretando um intelectual semi nu numa selva, soltando uns grunhidos.

Depois dessa experiência, Bernardet se arriscaria em pequenas participações em outros filmes até 2008, quando protagonizou FilmeFobia, do diretor Kiko Goifman, que lhe valeu o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília daquele ano – o segundo filme que fizeram juntos, inclusive com participação no roteiro, foi Periscópio, em cartaz em São Paulo e em algumas capitais do País. 

Desde então, o crítico de cinema, ensaísta, roteirista, professor aposentado da Escola de Comunicação e Arte da USP, diretor e escritor, aventurou-se como ator em mais quatorze filmes (entre longas e curtas), alguns inéditos, e essa imersão aconteceu quando se aposentou da USP, em 2004, e principalmente no ano seguinte, quando passou a ter problemas na vista: uma degeneração macular no olho esquerdo, que limita sua visão.

“A longevidade hoje nos colocou um impasse, pois vivemos, em média, até os 90 anos – o que fazer depois dos 60, 70?”, questiona. “Depois da aposentadoria e com os problemas na visão, pensei que seria inviável continuar fazendo as mesmas coisas. Poderia escrever mais um livro, tinha até um projeto sobre a obra de Nelson Pereira dos Santos (para mim, um dos poucos cineastas do mundo que não tem unidade de estilo), mas para quê? Deixei de lado esse projeto e entrei em um período de depressão.”

Bernardet voltou a se animar quando Kiko Goifman o convidou para fazer FilmeFobia, um longa híbrido, mistura de ficção e documentário, que Bernardet prefere nominar de autoficção – termo que vem da literatura e foi disseminado pelo escritor francês Serge Doubrovsky. “Autoficção não é autobiografia, trabalhei com esse gênero no meu livro Aquele Rapaz (lançado em 1990 e que trouxe traços biográficos e ficcionais misturados). No cinema, fiz filmes que considero autoficção, como os de Kiko e os dirigidos por Cristiano Burlan e Tarciano Valério. Os personagens que interpreto nesses filmes são maneiras potencializadas de mim mesmo. Não sou o sujeito deles, mas, ao mesmo tempo, não deixo de ser”, explica. 

Ele fez quatro filmes com Burlan (Amador, Hamlet, No Vazio da Noite, esse ainda inédito), e Fome, no qual interpreta um professor que decide morar na rua. O filme foi selecionado para Mostra Competitiva do Festival de Brasília, que acontece entre 15 a 22 de setembro.

No ano passado, também em Brasília, Bernardet concorreu por sua atuação em Pingo D’Água, de Tarciano Valério, que roda agora cenas no Nordeste com Bernardet de um projeto chamado ABCdário, que tanto pode resultar em uma série de TV como em um filme. Segundo Bernardet o que ele e outros atores estão fazendo são performances provisórias, orquestradas entre os atores e o diretor.

Divagações sobre o som e o silêncio

O ‘Estado’ acompanhou as filmagens de 9 Passos Para Destruição de Bernardet (título provisório), de Cláudia Priscila e Pedro Marques, em fase de montagem. O músico, produtor musical e compositor Lívio Tragtenberg tira sons de instrumentos inusitados. Bernardet escuta e diz o que está sentido. Logo, os dois, orientados pela diretora, divagam sobre os sons, o silêncio e as trilhas sonoras – inclusive dos documentários que Bernardet dirigiu, Sobre os Anos 60 e São Paulo, Sinfonia e Cacofonia, que prefere chamar de ensaios poéticos. / A.P.

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