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Jean Charles? Não, brasileiros lá fora

Filme mistura realidade e ficção para falar do novo momento em que o País de emigrantes exporta gente

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

26 de junho de 2009 | 11h28

Há mais de 20 anos, desde que tinha 19, Henrique Goldman vive no exterior. De ascendência judaica, família de classe média, foi primeiro para Nova York, depois para a Itália e, atualmente, reside em Londres, para onde volta domingo. Ao longo de todo esse tempo, Goldman foi refletindo sobre a sua condição de "estrangeiro".

 

Nos EUA, começou a brincar com cinema, fazendo vídeos de casamentos. Na Itália, fez Princesa, que investiga o universo dos travestis brasileiros que vão fazer a vida lá fora. Na Inglaterra, concluiu Jean Charles, que estreia nesta sexta-feira, 26, contando a história do mineiro que foi morto pela polícia no metrô londrino, suspeito de terrorismo.

 

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Assista ao trailer de Jean Charles video

 

Tão logo ocorreu o fato, Goldman percebeu que dava filme. Ele recebeu um telefonema de Fernando Meirelles, que lhe disse que a TV inglesa estava interessada. Goldman embarcou no projeto, mas o roteiro não lhe agradava. Ele se desligou, sem desistir. Foi procurar novas parcerias. Ia fazer o filme inteiramente com os ingleses, mas um dos patrocinadores falhou e ele encontrou sócios no Brasil.

 

Jean Charles foi feito em relativamente pouco tempo. Entre as informações na imprensa - Selton Mello vai fazer um filme sobre a morte de Jean Charles -, as etapas foram sendo queimadas rapidamente. Para Goldman, as coisas não foram tão rápidas assim. "Não estou me queixando, só quero deixar claro que não filmamos a toque de caixa."

 

E o filme, embora reconstitua a história de Jean Charles, não é sobre ele, ou só sobre ele. É sobre brasileiros no exterior, o tema que atrai o diretor, até porque, só assim, Goldman fala de si - da sua (da nossa) identidade. "O Brasil é um país de emigrantes que se abrasileiraram. Estamos vivendo uma nova fase. Os brasileiros estão migrando para o exterior. Em Londres, Roma, Nova York, no Japão, em outros lugares, existem comunidades brasileiras fortes." A maioria vai em busca de oportunidades, para ganhar dinheiro. O perfil desse migrante pouco muda - em geral é pobre e busca lá fora a vida que aqui não teve. O caso do próprio Goldman é diferente. Ele teve boas condições, boa escola. Queria a novidade, o conhecimento. É revelador que reconstitua a história de Jean Charles pelo olhar de sua prima, a personagem de Vanessa Giácomo.

 

Jean Charles começa e termina com ela, em diferentes momentos de sua vida. "Essas coisas vão saindo naturalmente. Não são premeditadas. Chega um momento em que o roteiro e os personagens exigem soluções." Para contextualizar as circunstâncias da morte de Jean Charles, Goldman recria o clima de paranoia nessa Inglaterra assolada por ataques do terror. E ele não transforma Jean Charles num herói. "Não queria exagerar, fazendo dele um santo. Com um ator como Selton e com a linha dramática já definida - esse cara é uma vítima, com certeza -, posso fazer dele uma figura mais complexa." Jean Charles é um virador. A luta pela sobrevivência o faz pisar na bola. Quando sua vida parece que vai endireitar de vez, ocorre a tragédia - ele está no local errado. Fim - para Jean Charles, mas não para Vanessa, personagem principal no filme.

 

Goldman tem ouvido que sua ficção tem muito de documentário. "Não sei o que é isso; não consigo conceituar o que é um e o que é outro. Quis fazer um filme verdadeiro." Na que talvez seja a melhor cena, a brasileirada vai a um show de Sidney Magal. Será a virada na vida de Jean Charles. Você pode ver ali um signo de afirmação de identidade. Magal e sua Sandra Rosa Madalena são representações de cafonice, mas aquilo - a generosidade, o entusiasmo - é a cara do Brasil. "O artista na vida de Jean Charles foi Zeca Pagodinho. Ele realmente salvou o show com sua habilidade como eletricista. Mas o Zeca não podia ir a Londres, porque estava com a agenda lotada. Terminei fazendo a cena com Sidnei Magal e foi muito boa."

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