Warner Bros. Pictures/AP
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Jason Momoa, o homem maravilha de 'Aquaman'

Filme que estreia nesta quinta, não é bem de super-heróis, mas uma fantasia que promove o encontro entre Julio Verne e o rei dos efeitos Ray Harryhausen

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2018 | 21h58

Para Jason Momoa, tudo começou há seis anos, quando ele começou a negociar com Zack Snyder sua participação em Aquaman. Em 2014, fechou contrato. Fez uma participação em Batman Vs. Superman – A Origem da Justiça, outra, um pouco maior, em Liga da Justiça. Snyder era o homem que estava comandando a expansão do universo da DC Comics no cinema. E aí veio a tragédia que destroçou a vida do diretor – o suicídio de sua filha. Liga da Justiça é sobre isso, sobre o desejo desesperado de trazer, de entre os mortos, a pessoa amada. O público não entendeu. Fãs de super-heróis não querem tragédias – pelo menos no tom.

Zack Snyder caiu fora de Aquaman, Henry Cavill não vai ser mais Superman. James Wan assumiu o comando do universo marítimo de Aquaman. Mudou muito, manteve o essencial. Momoa, Amber Heard – que Snyder, seguindo a própria atriz, testou e aprovou pessoalmente para o papel de Mera. Amber, a propósito, não estava muito convencida – tudo isso ocorreu antes do estouro de Mulher-Maravilha, no ano passado. Achava que mulheres, em filmes de super-heróis, são como princesas de contos de fadas, à espera do príncipe, perdão, do salvador. Snyder convenceu-a de que Mera seria forte, guerreira – e humorada. Mera passa o filme provocando Arthur Curry, o Aquaman, a quem chega a chamar de imbecil.

Aquaman sempre foi o corpo (mais?) estranho do universo dos super-heróis. Um maluco que fala com peixes? Arthur/Aquaman sempre se prestou às paródias de humoristas tipo a turma do Saturday Night Live, ou da Mad. Mas, embora o crédito da história seja do diretor James Wan (com outros), dá para perceber a mão de Zack Snyder e da mulher, Deborah, creditados como produtores associados. Arthur é filho de um faroleiro com a rainha da Atlântida, o único capaz de fazer a ponte entre terra e mar. A mãe, interpretada por Nicole Kidman, sacrifica-se para salvar o filho e o homem a quem ama. Some da vida dos dois, o que produz um trauma em ambos. O pai nunca deixa de esperar, mas Arthur convence-se de que ela morreu. Superman, a propósito, era sobre a relação do herói com o pai. Batman Vs. Superman era sobre o herói e a mãe. Aquaman é sobre a família – pegada de Snyder?

Talvez cause estranhamento o que você vai ler agora, mas Aquaman, que estreia nesta quinta, 13, não é bem um filme de super-herói e se arrisca a desconcertar os fãs do universo Marvel, que levam tão a sério essa mitologia pop. Na DC, as coisas tendem a ser mais flexíveis, pelo menos nesse novo universo expandido, em que relações importam mais que mitos, para autores como Snyder, ou Christopher Nolan. Mas se não é ‘bem’ um filme de super-heróis, Aquaman é o quê? Uma grande aventura, uma admirável fantasia nos moldes de Avatar, mas na qual James Wan rende tributo não a James Cameron, mas ao mago Ray Harryhausen. OK, estamos na era dos efeitos digitalizados, não mais na stop motion de Harryhausen, mas o conceito dos ‘monstros’ vem das aventuras marítimas de Simbad, cujos efeitos o grande Harry criou.

À revista Total Film, Wan disse o que quis criar – um senso de magia e ‘wonderment’. Ele abre o filme citando Julio Verne – dois navios, circundando o globo em direções opostas, teriam fatalmente de se encontrar. “Meu pai e minha mãe, o faroleiro e a rainha da Atlântida”, diz o narrador, que não é outro senão Arthur. Criado como homem, ele é forçado a assumir sua porção anfíbia e assumir o trono de Atlantis para conter o meio-irmão, que está declarando guerra ao povo da superfície. Para ser aceito no fundo do mar, Arthur precisa se apossar do tridente de ouro do mítico rei Atlan. Terá a ajuda de Mera, e de mais alguém. Quem? Olha o spoiler (mas a surpresa é boa).

Julio Verne, Ray Harryhausen. E o ‘maravilhamento’ que James Wan quis criar. Em primeiro lugar, quem é esse cara? Produtor, roteirista, diretor nascido na Malásia, Wan adquiriu projeção no terror, criando as séries Saw/Jogos Mortais, Annabelle e Invocação do Mal, na qual Patrick Wilson despontou como seu ator fetiche (e agora faz o irmão ensandecido de Arthur). Também escreveu e produziu A Freira. E dirigiu Velozes e Furiosos 7. Teria continuado na série, se não tivesse sido cooptado para Aquaman. Zack Snyder sabia que poderia contar com ele. Não por acaso, Snyder também começou no terror, com Madrugada dos Mortos.

Velozes e furiosos, os sicários do rei de Atlântida perseguem Arthur e Mera numa volta ao mundo – que inclui a destruição de uma cidade siciliana e dunas do Saara como não se viam desde Lawrence da Arábia, de David Lean, ou vá lá que seja, O Céu Que Nos Protege, de Bernardo Bertolucci. Um filho das águas no deserto? Não é a menor das bizarrices que Aquaman, o filme, apresenta.

Há 15 anos, para mostrar o fundo do mar em Procurando Nemo, John Lasseter, na Pixar, precisou criar programas especiais de computação porque não havia tecnologia. O precedente valeu – Wan só está indo mais longe, bem mais longe. E Momoa, essa montanha de homem, com sorriso cativante e um gosto pronunciado por cerveja? “Para quem dirigiu The Rock e Vin Diesel em Velozes 7, foi fácil, Jason é piece of cake”, diz Wan.

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