Jamie Foxx brilha no papel de Ray Charles

Você pode não ter visto Ray Charles cantar, mas agora vai ver Jamie Foxx, em Ray, e é quase a mesma coisa. Poucas vezes um ator incorporou tanto um personagem real. Jamie Foxx é a própria alma do filme de Taylor Hackford que estréia hoje. Ray concorre a seis prêmios da Academia de Hollywood, incluindo os de melhor filme, diretor (Hackford) e ator (Jamie Foxx). Se leva jeito de ganhar algum é justamente o de melhor ator para Foxx, que já levou o Globo de Ouro de drama pelo papel.Ray impõe respeito, com todos os defeitos que possa ter (e tem). O maior deles talvez seja a estetização da miséria na infância do menino Ray Charles, naquela comunidade pobre da Flórida. Ela tem seu contraponto no glamour, também excessivo, que caracteriza as cenas da consagração do cantor no meio artístico. O melhor de Ray, além das interpretações de Jamie Foxx e da atriz que faz sua mãe - Sharon Warren nem foi indicada como coadjuvante -, está nas cenas quase documentárias que mostram como ele criou seu som, sendo até acusado de demonizar, pela via do erotismo, a música do Senhor.Por mais fascinado que seja pelo artista Ray Charles, Taylor Hackford não sente a mesma admiração pelo homem obrigadoa conviver com a cegueira desde a infância. Hackford não fez uma biografia de santo. Ele revela o monstro por trás do artista, um egocêntrico que tudo sacrifica pela música, até a família e, no fim, ameaça perder sua arte por causa da droga. A música e a interpretação - de todos são tão fortes que você vai ter a impressão de flagrar um retrato do gênio e da miséria do artista.

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