Fernando Bizerra/EFE
Fernando Bizerra/EFE

James Cameron sai da ficção e cai na realidade brasileira

Diretor de 'Avatar', filme de maior bilheteria mundial, se engaja contra a construção da Usina de Belo Monte

13 Abril 2010 | 14h06

LUIZ CARLOS MERTEN - SÃO PAULO - Sam Worthington ou Zoe Saldana? James Cameron havia anunciado à direção da Fox do Brasil que traria consigo um dos atores principais do filme, em seu regresso ao País, agora para promover o lançamento de Avatar em DVD e Blu Ray. O lançamento ocorreu domingo à tarde em São Paulo. Avatar já estabeleceu novo recorde no mercado brasileiro - vendeu antecipadamente 35 mil cópias em Blu Ray.  Afinal, o diretor trouxe uma figura conhecida - e admirada - pelo público, Sigourney Weaver.

 

A atriz, que interpretou a comandante Ripley de Aliens - O Resgate, do próprio Cameron, disse que está realizando um sonho. Sempre quis conhecer o Brasil. Após os compromissos oficiais de domingo, Cameron, Sigourney, o produtor John Landau e o ator Joel David Cooper, integrado ao grupo, partiram para o Rio Xingu, cumprindo uma agenda particular. Cameron volta para o local onde será construída a hidrelétrica de Belo Monte, para novos contatos com as lideranças que se opõem ao projeto. No domingo, ainda em São Paulo, ele se encontrou com a pré-candidata Marina Silva para discutir questões ambientais - e política.

 

De tudo o que disse na coletiva e num encontro reservado com um grupo de quatro jornalistas, o mais impactante para o cinéfilo foi uma declaração - "O único limite no cinema, hoje, é a imaginação. A tecnologia tudo permite." Cameron mostrou cenas selecionadas - suas favoritas - de Avatar para ilustrar o cuidado audiovisual com que o Blu Ray foi produzido. O DVD e o Blu Ray lançados dia 22 trazem somente o filme. Em novembro, haverá novo lançamento, com extras e cenas adicionais, que ainda estão sendo finalizadas em laboratórios da Nova Zelândia. Para alguém tão preocupado com o desperdício global - e os riscos para o planeta -, não é paradoxal ficar estimulando o consumismo desse jeito?

 

Além dos custos com as sucessivas cópias em DVD e Blu Ray, o cinéfilo daqui a pouco vai ter de trocar seus aparelhos, porque os lançamentos preveem até edições especiais para TVs em 3-D. O produtor diz estar atendendo a uma exigência do mercado. "Se não o fizermos, controlando o processo, a pirataria o fará." Cameron esclarece - "O grande problema, quando falamos em sustentabilidade, não é o consumo, em si, mas o fato de os bens não serem recicláveis." E o ator Cooper acrescenta - "É bom para a economia. Todas essas etapas implicam novos empregos." O desafio é tentar equilibrar as exigências do progresso com uma maior responsabilidade social (e ambiental). A seguir, em tópicos, o pensamento vivo de James Cameron.

 

Êxito de Avatar. "Este filme foi feito com grande respeito pelo espectador. Foram mais de 10 anos de trabalho e 3,5 entre a primeira filmagem e a primeira cena concluída, quando pudemos confirmar que o universo mágico de Pandora estava intacto na tela. Acredito no cinema que cria mundos paralelos, mas a força da ficção científica não está na evasão e sim, no fato de criar novas formas para que possamos falar de nossos problemas, aqui e agora. Avatar propõe isso. O mistério daquela floresta é uma das explicações do sucesso, mas também o sentimento de religiosidade. Vivemos uma época de crise e o filme abre uma janela que serve de consolo."

 

3-D. "Hollywood está obcecada pela tecnologia. O futuro do cinema passa pelo 3-D. Todos esses filmes de sucesso estão ganhando versões reajustadas, mas não creio que seja o procedimento adequado. O 3-D não é só uma questão de técnica. É um processo criativo. Os filmes já precisam nascer conceitualmente nesse formato. A técnica é uma ferramenta. Não é mais um mistério. Hoje em dia, podemos tudo. O limite não é mais a técnica, é a imaginação."

 

Motion capture. "A captura do movimento, que está na base das interpretações de Avatar, não consiste em colocar os atores contra um fundo imaginário. O plano é sempre uma limitação ao trabalho do ator. Ele representa para a câmera, em plano geral ou próximo. Precisa repetir a performance para a câmera. Na motion capture, os aparelhos são ligados ao corpo do ator, que se move num cenário amplo, maior do que esta sala. Ele não se preocupa com nada. Cenários, maquiagem, adereços, roupas. Nem com a câmera. Concentra-se só na interpretação. Tudo será aplicado depois, na pós-produção. Os próprios planos serão definidos mais tarde. É uma pena que ainda exista tanto erro de informação e preconceito. Está impedindo que as pessoas vejam a riqueza das criações de Sam (Wortington) e Zoe (Saldana) em Avatar."

 

Avatar 2. "Ainda vamos necessitar de uns três anos para ter o novo filme. A tecnologia está pronta, a floresta está armazenada em nossos computadores. Essa será a parte fácil. O difícil será criar uma boa história. Tenho algumas ideias que já estão avançadas, mas ainda não é o momento de divulgá-las. O que posso antecipar é que teremos de novo os na’vis, que parte da ação se passará em terra e parte no oceano, no mundo subaquático. Uma continuação impõe problemas específicos. Para que funcione, é preciso uma certa mistura de elementos conhecidos com outros novos. O público quer reencontrar algumas coisas, mas também quer ser surpreendido. Todos os atores assinaram contrato para eventuais sequências. Isso não será um problema."

 

Amazônia. "A rain forest tem sido uma inspiração para mim, mas o 2 não vai se passar na Amazônia pelo fato de que a floresta de Avatar não existe, exceto como proposta virtual e espaço da imaginação. Estou voltando à Amazônia esta semana. Pretendo filmar coisas que já estão ocorrendo por lá. A construção da hidroelétrica de Belo Monte terá um impacto muito forte na região. A natureza, mais uma vez, está ameaçada. Já documentei muita coisa na visita anterior à região, mas não estou coletando material para um documentário convencional. Essas coisas poderão entrar nos extras de Avatar."

 

De olhos bem abertos. "Avatar começa e termina com imagens de olhos e, durante todo o filme, tem sempre alguém abrindo os olhos. É o tema do filme, a ideia de que o homem precisa abrir os olhos para os problemas ao redor, para a sua relação com a natureza. Vale para todo o mundo. Como parte da campanha de lançamento em DVD e Blu Ray, a Fox Home Entertainment e a Day Earth Network estão lançando uma campanha para plantar 1 milhão de mudas de árvores em todo o planeta. Começamos no domingo, em São Paulo. Só no Brasil, serão 200 mil mudas. Não é um gesto simbólico. É algo real. O importante é abrir os olhos e o coração. A força de conscientização do cinema passa pelo fato de que ele pode nos emocionar muito."

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