AFP PHOTO / ANGELA WEISS
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Jake Gyllenhaal interpreta um herói iluminado em 'O Que Te Faz Mais Forte'

Ator continuado bem cotado para uma indicação ao Oscar pela atuação no filme

Cara Buckley, The New York Times

22 Janeiro 2018 | 06h00

Jake Gyllenhaal não ganhou a indicação para o Globo de Ouro por seu desempenho no filme O Que te Faz Mais Forte, em que fez Jeff Bauman, o jovem que, na vida real, perdeu parte das pernas no atentado da Maratona de Boston. Mas continua bem cotado para uma indicação para o Oscar. O filme, mais do que traçar a trajetória de vida de um herói, mergulha na ambivalência da ruidosa celebração em torno de Baunam como patriota após a tragédia. 

Gyllenhaal, de 37 anos, disse que ele e Bauman, que completou 37 neste mês, se tornaram muito próximos no filme. “Ele tem uma luz”, afirmou Gyllenhaal numa conversa no fim do ano passado em seu escritório no SoHo, com biscoitos de chocolate e a presença do cão pastor alemão Atticus. 

O Dia do Atentado, outro filme sobre o ataque Boston, saiu na mesma época que O Que te Faz Mais Forte. O primeiro é mais voltado para a caça aos terroristas, enquanto o seu questiona a ideia de que a simples sobrevivência faz de alguém um herói. Você ficou preocupado com que os dois filmes se sobrepusessem?

Os dois filmes tratam do terrível crime e das pessoas que o cometeram. Há uma busca por justiça. Mas a história de Jeff não é sobre a ideia convencional do triunfo do espírito humano. É sobre o conflito com essa ideia, o que me fascinou. Vivemos num mundo em que todos desejam soluções. O filme, porém, não leva por esse caminho. Todos os problemas de Jeff continuam existindo. Acredito em mudanças, mas não vejo como ignorar as complicações implícitas. 

O que você entende por “mudança”, no caso?

Jeff hoje é pai, coisa que não acreditava pudesse vir a ser. Ele está sóbrio há 15 meses. Mudou exponencialmente nesse tempo, mais do que qualquer um que eu conheça. Mas isso não ocorreu sem luta. Não foi algo do gênero “é, tive meus problemas com o álcool, mas isso simplesmente acabou”. Alguns filmes mostram quadros assim, mas eu acho que falta alguma coisa neles. 

Sua transformação física para o papel foi impressionante. Seu cabelo ficou realmente crespo. Você fez permanente? 

Fiz. Foi uma permanente suave, porque não queria ficar crespo demais.Vendo o cabelo de Jeff você entende. É muito característico. Donald Mowat, um artista da maquilagem, me disse: “Acho que para chegar a um cabelo assim bagunçado você tem de fazer permanente”. E eu: “Sabe que sempre quis fazer uma?”. Foi minha primeira. O cheiro é muito forte.

Quando falo em transformação física, obviamente me refiro mais ao fato de você ter de deslocar o corpo usando os braços, esquecendo as pernas. Como foi a preparação para isso?

Passei um ano com Jeff antes de começarmos a filmar. Na primeira semana em que nos encontramos, fomos jantar no restaurante de um hotel. Jeff tirou suas pernas Genium Ottobock e me mostrou como colocá-las de volta, retirá-las e se movimentar sem elas. Foi a primeira vez que o vi sem as pernas eletrônicas. Então, por mais de um ano, eu o vi inúmeras vezes. Quando ele ficava no chão, eu ficava junto, vendo as coisas de outra estatura e sob outra perspectiva, numa experiência quase infantilizadora. As pessoas tratam você e falam com você de modo diferente, não sabendo como se relacionar. The New York Times fez sobre Jeff uma reportagem que ganhou um Prêmio Pulitzer. Perguntei a ele se não ficara nada de fora. Isso foi num período em que ele estava totalmente perdido, apenas um mês depois do atentado terrorista. Tudo estava embaralhado - seus sentimentos, a experiência pela qual passava. Para mim, como estudo de comportamento, foi uma mina de ouro.

Você já havia se dedicado tanto a um personagem?

Apenas uma vez houve algo parecido, quando estava fazendo Marcados para Morrer e um dos policiais estudados se tornou muito meu amigo. Mas nada se compara a isto. Sinto como se se tratasse de muito mais que um filme. Porque Jeff hoje é meu amigo, e conheço e gosto das pessoas de seu círculo. Quando você está com ele, qualquer coisa de que você normalmente se queixaria se torna pequena. Ele faz com que você se sinta assim. Ele tem uma luz. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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