Zoetrope
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Jair Kurtz

‘Coração das Trevas’ foi tido como retrato da frágil fronteira entre sanidade e loucura

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2021 | 03h00

Um militar embrenhado no meio do nada passa a desobedecer ao comando, é afastado, junta uma milícia própria e guerreia impiedosamente, sem aceitar o contrário, mandando mensagens desconexas de áudio. 

Fica cercado de cadáveres, vírus de doenças contagiosas e fanáticos que o chamam de mito. Vive na paranoia de que aliados são agentes duplos. Desconfia que querem matá-lo.

– Você não gosta dos meus métodos? – pergunta a um subordinado. 

– Não vejo método algum, senhor.

Lembra alguém? Esse diálogo ocorre entre o coronel Walter Kurtz, das Forças Especiais do Exército Americano, e Benjamin Willard, capitão de Operações Especiais, enviado numa missão da CIA para eliminar o superior, e é obra de ficção dos roteiristas John Milius e Francis Ford Coppola.

Não conseguia entender por que impliquei em rever o filme Apocalypse Now. Já o conhecia de cor desde a sua estreia. Repito com a mesma entonação muitas de suas falas, como “Charlie don’t surf” (inimigos não surfam), do maluco e carismático tenente-coronel Kilgore, que deu na música do The Clash, que num trecho ironiza: “Charlie’s gonna be a napalm star” (vietcong será uma estrela de napalm).

Kilgore (Robert Duvall) é responsável por uma das melhores cenas do cinema contemporâneo, ao pedir o bombardeamento de uma mata, onde atiradores o impediam de surfar ao chegar com helicópteros ao som de Cavalgada das Valquírias (Wagner): “Adoro o cheiro de napalm de manhã... Cheira a vitória”. 

Ironicamente, o deslocamento de ar do bombardeio atrapalha a formação das ondas então perfeitas, o que só é contado na versão Redux, de 2001, com 50 minutos a mais. Nela, uma das melhores sequências, Fazenda Francesa no Camboja, em que Willard se espanta com a teimosia de fazendeiros franceses ficarem: “Essa terra não é nossa, é deles”.

O filme é das maiores obras do cinema mundial. Cada cena é antológica. Coppola estava tomado. No documentário que sua mulher, Eleonor, fez durante as filmagens, mostra-se o surto maníaco do diretor, que passava madrugadas reescrevendo, improvisando, acertando cada detalhe, na produção que era para durar dois meses.

Num certo momento, ele diz: “Um diretor de cinema é um ditador, dos últimos que restam”. Vivia como Kurtz seu apocalipse mental.

As filmagens nas Filipinas, sem a ajuda do Exército americano, duraram quase um ano, interrompidas por um tufão, um ataque cardíaco do ator principal, Martin Sheen, uma guerra civil, que obrigava o ditador local, Ferdinando Marcos, a desviar do set para um combate real os helicópteros alugados e, mesmo ganhando US$ 1 milhão por semana, Marlon Brando ameaçou desistir e chegou sem saber do que se tratava.

O filme era para ser feito no final dos anos 1960: readaptação de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, para os dias da Guerra do Vietnã, ainda em andamento nas selvas da Indochina, com uma câmera de 16 mm na guerra. O estúdio não deu o OK.

Coppola decidiu ele mesmo produzir. Para faturar um troco, fez dois filmes antes: O Poderoso Chefão versão 1 e 2. Ficou podre de rico, torrou tudo nas Filipinas, hipotecou seus bens e deu como garantia a vinícola ao estúdio.

Conrad era considerado um autor menor pelo uso excessivo de adjetivos. Não chegava aos pés da perfeição e profundidade de Dickens, diziam. Era tratado como o marinheiro semianalfabeto que escrevia livros sobre viagens marítimas. 

Coração das Trevas foi lançado em três partes na virada do século numa revista. O livro profético apresentou ao modernismo uma narrativa dentro de outra com uma linguagem crua, seca, pouco trabalhada, cujo cenário é dos lugares mais infames daquele tempo, o antigo Congo Belga, que ainda escravizava africanos e exportava marfim como mato, e que tinha um dono, Rei Leopoldo II. 

Só depois o livro bombou, foi adotado nas escolas, passou a ser tratado como clássico, porém xenofóbico por intelectuais africanos. A bordo de um barco, Marlow sobe o Rio Congo para resgatar o eficiente e prodigioso chefe do posto de comércio, Sr. Kurtz, que se embrenhara na mata e enlouquecera. 

O livro sempre foi tido como retrato da frágil fronteira entre sanidade e loucura, civilização e mundo selvagem, que Freud chamava de “homem primitivo”, obsessão dos ingleses desde A Tempestade, de Shakespeare. 

No mais, previu o rompimento do limite da loucura humana que viria em dose industrial em duas guerras mundiais. Orson Welles queria filmá-lo. Mas fez um programa de rádio e Cidadão Kane

Coppola juntou histórias que reverberaram na imprensa, de oficiais que enlouqueciam no poder, como Tony Poe, que exibia cabeças decepadas do inimigo, e o coronel das Forças Especiais, Robert B. Rheault, que matou por conta própria um aliado suposto agente duplo na Guerra do Vietnã.

Entendi a necessidade orgânica de rever o filme. E, surpresa, pelo aplicativo Just Watch, que te informa em qual streaming passa a obra pesquisada, descobri um pacote com o Final Cut de 3h02 e o documentário Apocalipse de um Cineasta, no nosso Belas Artes a La Carte.

Para poder repetir as palavras finais de Kurtz da janela num panelaço: 

“ O horror, o horror...”.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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