Jafar Panahi, um diretor iraniano querido no Brasil

Abbas Kiarostami, Moshen Makhmalbaf e Jafar Panahi formam o trio de diretores que marcou os anos 90

Teresa Ribeiro, do estadao.com.br,

03 de março de 2010 | 17h55

Diretor iraniano Jafar Panahi, com o Urso de Prata que ganhou na 56.ª edição do Festival Internacional de Berlim com 'Fora do Jogo'. Foto: EFE/Wolfgang Kumm

 

SÃO PAULO - A notícia da prisão do cineasta iraniano Jafar Panahi pelo governo do Irã traz de volta as lembranças não só de seus filmes como de sua presença no Brasil. Já no começo da carreira Panahi emocionou o público brasileiro com O Balão Branco, de 1995, com roteiro de Abbas Kiarostami, um dos maiores nomes do cinema iraniano. Ganhou o prêmio do júri na 19.ª Mostra de Cinema de São Paulo, o da Associação de Críticos de Nova York e o Camera d'Or no Festival de Cannes. Participou depois como jurado da 22.ª Mostra.

 

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O Balão Branco foi seu primeiro longa, realizado depois de alguns documentários e dois filmes para a televisão. Poético, singelo, conta a história de menina de 7 anos que consegue da mãe dinheiro para ganhar um peixinho dourado de ano novo, como de hábito no Irã, mas perde a nota no caminho e depende dos adultos... Era ainda os anos 90, época em que as produções iranianas ganharam as salas de cinema por todo o País. "Entre os muitos serviços prestados pela Mostra Internacional aos cinéfilos paulistas está a revelação do novo cinema iraniano", dizia em texto de 1998 o crítico do Estado Luiz Zanin Oricchio. "Foi por iniciativa de Leon Cakoff que nomes como Abbas Kiarostami, Moshen Makhmalbaf e Jafar Panahi deixaram de ser exóticos e tornaram-se familiares e queridos, assim como seus filmes, E a Vida Continua, Através das Oliveiras, Gosto de Cereja, Salve o Cinema, Balão Branco". Mais tarde, em 2003, o crítico registrava a influência do trio de diretores: "fizeram a cabeça de muita gente mundo afora, inclusive no Brasil - Walter Salles é um dos diretores que se dizem influenciados pelo novo cinema iraniano."

 

Depois de O Balão Branco e O Espelho, ambos voltados para a infância, o tema da mulher iraniana renderia dois importantes prêmios a Panahi. Ganhou o Leão de Ouro, o prêmio máximo no Festival de Veneza de 2000 com O Círculo, pelo retrato dramático que fez da condição subalterna da mulher na sociedade muçulmana, cruzando a vida de nove personagens. O filme foi proibido de ser exibido no Irã, acusado pelas autoridades de denegrir a imagem do país. Em 2006, levou o Leão de Prata de Berlim ao conquistar o Grande Prêmio do Júri por Fora do Jogo, um filme bem humorado que mostra a luta e o desejo de algumas garotas iranianas que queriam assistir as eliminatórias da Copa de 2006, quando o Irã enfrentou o Bahrein em casa, podendo empatar e seguir para a Alemanha. Uma história de futebol sem uma única cena de jogo.

 

Com seu cinema dedicado à crítica social, Panahi sempre teve problemas com as autoridades iranianas. Assim aconteceu também com o thriller Ouro Carmim, que ganhou o prêmio do jurado "Un Certain Régard" em Cannes, foi exibido na Mostra de Cinema de SP em 2003, e na TV Cultura mais recentemente. O filme mostra não só as ruas de Teerã por meio do personagem motoqueiro que rouba bolsas de mulheres durante o dia e entrega pizzas à noite em casas de ricos e pobres, exibindo um traço da realidade social do país.

 

Panahi foi proibido de sair do Irã para participar do Festival de Berlim deste ano. Lá nos idos anos 90 ele já tinha tido problemas com o visto para vir ao Brasil, quando foi do júri da 22.ª Mostra de Cinema.

 

Em entrevista ao Estado em 1998, o diretor nascido em Teerã em 1960, conta ao repórter e crítico Luiz Carlos Merten sobre sua opção de usar não-profissionais nos principais papéis, não só por ser uma opção barata em indústria pobre, mas "por que o não profissional quase sempre traz mais verdade para o papel, principalmente quando é forçado a vivenciar situações difíceis". E apesar de ter visto muito Alfred Hitchcock, Luis Buñuel e John Ford, opção pela simplicidade como forma de arte. "Não é fácil ser simples", disse.

 

 

 

 

 

 

 

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