Jacqueline Bisset é o que resta de 'Bem-vindo a Nova York'

Para crítico do 'Estado', não se pode dizer que o realismo bruto do filme agregue muita coisa ao cinema de Abel Ferrara; atriz é homenageada em Paulínia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 02h00

Você sabe com quem está falando? Debaixo do título do novo Abel Ferrara – Bem-vindo a Nova York –, o subtítulo coloca a frase associada a todo-poderoso que se preze. Poder e dinheiro associados produzem megalomania e, talvez, no imaginário dos humildes, impunidade. Ferrara conta a história de um certo Devereaux, que trabalha todo dia com bilhões de dólares e controla as economias do mundo. O que Devereaux não consegue controlar é a própria libido.

Ferrara nunca teve meias medidas ao filmar a violência. Ele encara o sexo com a mesma disposição. Devereaux, interpretado por Gérard Depardieu, faz sexo compulsivamente nas cenas iniciais de Bem-vindo a Nova York. Emenda uma amante na outra, sexo selvagem. Anal, oral, o bom e velho papai e mamãe. Priápico e insaciável, Devereaux não se contém quando, ao sair do banho, após uma noitada de farra, topa com a camareira dentro do quarto. Avança sobre ela com disposição. Força-a a ter relações.

O caso gera uma denúncia, Devereaux é preso. E não tem essa de ‘sabe com quem está falando?’ Bem-vindo a Nova York baseia-se na história real de Dominique Strauss-Kahn, presidente do Banco Mundial e presumível candidato às eleições francesas, para ocupar o cargo de presidente que Nicolas Sarkozy estava deixando. Strauss-Kahn, que já se envolvera em acusações de assédio sexual, foi preso em Nova York, acusado de violentar a camareira do seu quarto de hotel. O caso reverberou na mídia. Ele perdeu o cargo no FMI, perdeu a indicação para concorrer a presidente.

Como se conta uma história dessas? Abel Ferrara conta com urgência, menos preocupado em estetizar (o sexo e a violência) e mais interessado, como ele mesmo disse, em Cannes, em levar seu elenco ao limite. Todo ano o maior festival de cinema do mundo investe num escândalo de ordem sexual para incrementar sua programação. Este ano, o último da seleção do presidente Gilles Jacob, o delegado-geral Thiérry Frémaux não considerou Welcome To New York digno de integrar a lista das obras que iam concorrer à Palma de Ouro. Ferrara e seu produtor Vincent Maraval não se deram por vencidos. Usaram o foro de Cannes para criar um evento paralelo.

O filme, exibido fora de concurso, teve mais mídia que qualquer longa da competição. Ferrara e Depardieu tiveram mais que os 15 minutos de fama que o lendário Andy Warhol vaticinava para as celebridades, nos anos 1960. Do ponto de vista de Ferrara, não se pode dizer que o realismo bruto de Bem-vindo agregue muita coisa a seu cinema. Do ponto de vista de Depardieu, o desconcerto é grande. Depardieu está imenso. Parece um ogro, e não se pode dizer que tenha engordado, à Robert De Niro, para fazer o papel. Ele se masturba freneticamente, lança-se sobre as parceiras como um animal. Elas são profissionais. Enfrentam olimpicamente as sessões de sexo.

Segundo Depardieu, o importante era não moralizar. “Abel teve a coragem de não fazer o que fez a mídia, que julgou e condenou Dominique”, disse o ator. Ele tentou entendê-lo. Fez o que tinha de fazer. Mas Depardieu, com a sua coragem de se expor, não é o melhor de Bem-vindo a Nova York. Se o filme tem alguma coisa realmente boa, e tem, é Jacqueline Bisset. Ela faz a mulher de Devereaux/Strauss-Kahn. Uma aristocrata que tudo investiu no marido, tolerando seu excessos de olho no poder que ele estava conquistando. O que Devereaux tem de vulgar, a mulher tem de fina. Jacqueline Bisset sempre foi uma bela mulher. Delicada, trabalhou com grandes diretores, de François Truffaut a John Huston, de Stanley Donen a George Cukor.

Algumas de suas cenas com Depardieu são prodigiosas. Improvisadas pelos atores, assemelham-se a psicodramas. Um casal desnuda-se em cena. Cenas de um casamento, sem Ingmar Bergman, mas com a força de interpretações que parecem ‘roubadas’. Jacqueline Bisset, homenageada em Paulínia, é o que resta de Bem-vindo a Nova York.

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