STEPHANIE BRANCHU/WASHINGTON POST
STEPHANIE BRANCHU/WASHINGTON POST

'Jackie' é um estudo intimista sobre a solenidade e o poder

Um dos acontecimentos trágicos do século 20, o assassinato de John Kennedy, visto pelos olhos da viúva

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2017 | 11h29

Quem vê Jackie, do chileno Pablo Larraín, se impressiona com o perfeccionismo de Natalie Portman. Comparando-se às imagens de Jacqueline Kennedy disponíveis (algumas no YouTube), nota-se que Nathalie incorpora o gestual, o modo de andar, a voz e o ritmo de fala de Jackie; é tudo tão verossímil que raramente nos lembramos de que a semelhança física entre a primeira-dama e a atriz não é tão grande assim. Importa a interpretação e esta não é mero mimetismo. 

E há a escolha de Pablo Larraín ao ingressar em terreno mítico da história recente dos Estados Unidos (os Kennedys foram o que mais se aproximou, nos EUA, de uma família real). Ele não se ocupa em traçar uma biografia em linha reta de Jacqueline; concentra-se num período preciso – e trágico – que vai do assassinato de John Kennedy até seu enterro. 

É, por outro lado, um filme de bastidores. E balizado entre dois acontecimentos jornalísticos que têm Jacqueline como protagonista. Um é um programa de TV sobre a Casa Branca, de 1961, que tenta mostrar como a nova inquilina transforma a vetusta morada presidencial em um lar. É dirigido por Franklin J. Schaffner.

O segundo é uma entrevista concedida por Jackie ao repórter Theodor H. White, em novembro de 1963. Ela suspeita que todas as perguntas têm por fim chegar ao foco real de interesse – o que ela viu e sentiu no momento em que o disparo atingiu o cérebro do marido naquele 22 de novembro de 1963 em Dallas, Texas. 

Portanto, Jackie é, também, e de maneira sutil, um estudo sobre a nascente sociedade do espetáculo, através de uma de suas protagonistas. Jacqueline sabia da importância de apresentar a Casa Branca como um lar. Era, provisoriamente, o seu lar (uma de suas falas é “a primeira-dama deve estar sempre com as malas feitas”). Mas também o lar de todas as norte-americanas. Signo de humanização do poder, para um presidente tão midiático quanto Kennedy. 

Jackie tinha essa consciência do espetáculo. Contra a opinião da segurança, bate o pé e consegue enterro digno de um rei. Em sua última batalha como primeira-dama, sabe que a solenidade da ocasião, viúva e filhos juntos do caixão, comporia uma imagem guardada pela História. O significado das cerimônias relaciona-se com o poder. 

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