Jack Nicholson é a alma de "As Confissões de Schmidt"

Em Cannes, no ano passado, tão logo terminou a exibição de As Confissões de Schmidt, críticos do mundo inteiro vaticinaram: Jack Nicholson vai de novo para o Oscar. Não deu outra. Três vezes vencedor do prêmio da Academia de Hollywood - melhor ator por Um Estranho no Ninho, de Milos Forman, e Melhor É Impossível, de James L. Brooks, melhor coadjuvante por Laços de Ternura, também dirigido por Brooks -, Nicholson volta a concorrer na categoria principal. Ele é a alma de As Confissões de Schmidt. O filme de Alexander Payne estréia hoje na cidade. Pode parecer um Melhor É impossível 2, mas não é destituído de charme.Nicholson está se especializando nesses papéis de velhos ranzinzas, que interpreta com muitas caras e bocas, mas o faz com tanta humanidade que eles se tornam não só convincentes como encantadores. O herói de As Confissões de Schmidt é - um pouco, pelo menos - o personagem de Melhor É Impossível, só que mais velho. Schmidt aposenta-se, perde a mulher e põe o pé na estrada.Sob a justificativa de que vai visitar a filha, parte, na verdade, em busca de seu passado. Faz descobertas que o desestabilizam ainda mais, acentuando a crise de velho que se descobre solitário. A filha não gosta dele e não vê com bons olhos a chegada do pai justamente às vésperas de seu casamento.Schmidt também não gosta do futuro genro, que considera medíocre, e resolve impedir a união. Até os futuros sogros da garota lhe parecem inconvenientes, vulgares e Kathy Bates, que faz a sogra, tem um momento que tanto pode ser corajoso quanto grotesco: aparece nua numa cena de banho com Schmidt! Como se não bastasse tudo isso, Schmidt faz ainda outra descoberta dolorosa para ele: a mulher teve um caso com seu melhor amigo. Haja coração.O diretor Payne fez Ruth em Questão, com Laura Dern, sobre a polêmica questão do aborto. Há tempos queria fazer um filme sobre a terceira idade, centrado na crise de um homem que se aposenta e descobre o vazio de sua vida. Esse filme deveria chamar-se The Coward, O Covarde. Payne chegou a apresentar o projeto a algumas companhias de Hollywood. Quando bateu na New Line, a empresa anunciou que já possuía os direitos do livro About Schmidt, de Louis Begley, que seria transformado em filme com Jack Nicholson. A New Line rejeitou o roteiro de The Coward, mas convidou Payne para dirigir o filme que estréia hoje. Após muitas idas e vindas, ele conseguiu manter parte do seu roteiro original, acrescido de parte do livro, compondo um script formatado para o brilho de Nicholson.Vittorio de Sica e Ingmar Bergman fizeram, respectivamente com Umberto D e Morangos Silvestres, os maiores filmes sobre a solidão e a velhice. As Confissões de Schmidt não se compara a esses clássicos. Sua ambição é mais modesta. É um filme humano e divertido sobre gente como a gente. Está mais para Harry e Tonto, de Paul Mazursky, que deu o Oscar de melhor ator para Art Carney, e Ainda Há Fogo sob as Cinzas, o único filme dirigido pelo ator Jack Lemmon, com Walter Matthau como o septuagenário que carrega nas costas o colapso moral da sociedade contemporânea.As Confissões de Schmidt talvez deva mais a Lemmon, afinal de contas. Schmidt vai ao fundo do poço, mas o filme de Payne não termina sem que ele consiga dar a volta por cima, reconciliando-se consigo mesmo por meio de um gesto de caridade ou, talvez seja mais correto dizer, solidariedade, envolvendo um menino pobre do outro lado do mundo. Por via das dúvidas, carregue o lenço, pois o finalzinho do filme envolve uma carta que... É melhor não tirar a graça do desfecho: veja As Confissões de Schmidt para saber. E, depois, torça por Nicholson no domingo. Isso, é claro, se a festa do Oscar não for transferida por causa da complicada situação geopolítica do mundo.

Agencia Estado,

21 de março de 2003 | 12h41

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.