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Jack Huston reflete sobre seu papel na nova versão de 'Ben-Hur'

Neto de John Huston, ator conversou com o 'Estado' sobre a força do clássico; também entrevista com Rodrigo Santoro; veja trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2016 | 06h00

Jack Huston, ator inglês de 33 anos - o Judá da nova versão de Ben-Hur, que estreia na quinta, 18 -, pertence duplamente à nobreza. Ele riu quando o repórter lhe disse isso, no encontro que tiveram em São Paulo, quando Jack veio promover o longa do russo Timur Bekmambetov com seu colega brasileiro, Rodrigo Santoro, que faz o Cristo. Por parte de mãe, Jack é aristocrata - ela é Lady Margot Lavinia Cholmondeley Anthony. O pai é Walter Huston, filho do lendário John Huston e, portanto, o ator é neto do grande diretor e sobrinho de Anjelica Huston. Pertence à nobreza de Hollywood. Ele ri. “Vivi sempre dividido entre os EUA e a Inglaterra, e para meus amigos norte-americanos pouco importava que minha mãe fosse lady. Para os ingleses, salvo num círculo muito reduzido de cinéfilos, Huston também não significava muito.”

Mas ele conta que, um pouco por influência do avô - que morreu quando ele tinha 5 anos -, o cinema sempre fez parte de sua vida. “Até onde me lembro, minha família sempre viu e discutiu filmes. Ben-Hur, a famosa versão dos 11 Oscars, de William Wyler, de 1959, fazia parte do nosso repertório. John foi roteirista de Willie, você sabe (em Jezebel) e eu cresci ouvindo a história sobre como Gore Vidal enganou Charlton Heston e o fez representar aquela história velada de homossexualidade.” Jack Huston refere-se à ligação de Ben-Hur e Messala, o tribuno romano criado por Stephen Boyd. Jack admite que ficou bem curioso quando soube que haveria uma nova versão. A simples curiosidade virou excitação quando seu nome começou a ser cogitado e Timur marcou um encontro com ele. “Oh, meu Deus”, pensou.

O entusiasmo foi tanto maior porque não se trata de um remake, o que o filme de Wyler era da primeira versão, de Fred Niblo, nos anos 1920. “Não acreditei quando li o roteiro. Estava mais para um ‘reboot’ (uma reinvenção). Timur e os roteiristas compactaram o plot, reduziram a duração, inverteram a temporalidade. Mas o mais impressionante é como, numa época de tensões políticas e religiosas como a nossa, uma época de radicalismo, eles mudaram o desfecho. A história de ódio, a exemplo do Cristo, vira de amor e de perdão. Sei que tem gente que vai estranhar e até não gostar, mas, como ator, achei um desafio e tanto.” Seu Judá Ben-Hur, ele reconhece, é muito diferente do de Charlton Heston. “O dele era bigger than life, maior que a vida. O meu é um garoto que faz um duro aprendizado para amadurecer.” E como foi contracenar com Rodrigo Santoro, como Cristo? “Claro que o papel dele é mais icônico que o meu, mas Judá deu o Oscar para Charlton (Heston). Felizmente, tínhamos uma diretora de elenco e Timur que nos diziam - ‘Não tentem imitar ninguém, o que vocês podem e devem fazer é encontrar esses personagens em vocês.’ E foi o que fizemos.”

O mais difícil foi a corrida de bigas - seis semanas inteiras de filmagem. “Demorei mais de uma semana só para me ambientar com os cavalos. Quando consegui ficar de pé na biga, Timur foi direto - ‘Agora você já pode representar.’ Pois o desafio é esse. Às vezes, você foca tanto em alguma outra coisa, os cavalos por exemplo, que se esquece de representar.” Pai de uma menina, Jack admite que seu gosto teve de mudar um pouco. “Ela adora cinema e eu espero que você acredite que já me fez ver três vezes Procurando Dory.” E ele gostou? “Procurando Nemo é melhor.” E os filmes do avô. “Gosto muito de O Tesouro de Sierra Madre (de 1948), pelo qual ele ganhou os Oscars de direção e roteiro. Mas o meu preferido do coração é O Homem Que Queria Ser Rei (1975), com Sean Connery e Michael Caine. A vida inteira li e ouvi histórias de Rudyard Kipling. E John era um aventureiro, você sabe. É um filme que não me canso de rever. Cada vez você descobre alguma coisa nova. É maravilhoso.”

O clássico de 1959, recorde de prêmios da Academia

Durante toda a década de 1950, Hollywood foi perdendo espaço para a televisão. Em 1959, uma das maiores companhias do cinema - a Metro, marca do leão - resolveu radicalizar. Em 1958, a empresa ganhara os Oscars de filme e direção por Gigi, e o filme de Vicente Minnelli, pai de Liza, foi uma espécie de despedida do gênero. A Metro encerrou sua unidade de musicais, mas, no ano seguinte, ganhou de novo, melhor filme e direção, mais nove prêmios da Academia, por Ben-Hur. Foram 11 Oscars - um recorde que só seria igualado por Titanic, de James Cameron, quase 40 anos depois.

Ben-Hur! O romance do General Lew Wallace já havia sido filmado por Fred Niblo, com Ramon Novarro, em 1925. A tale of the Christ, uma história dos tempos de Cristo. O novo diretor era William Wyler, um dos mais prestigiados de Hollywood, duas vezes vencedor dos Oscars de filme e direção, por Mrs. Minniver/Rosa da Esperança e Os Melhores Anos de Nossas Vidas, ambos dos anos 1940. Filmado em Roma - Hollywood no Tigre -, Ben-Hur foii vendido como o maior filme, até então. Mas Wyler, sempre atraído por dramas psicológicos, não o via assim. O que lhe interessava era o embate entre Ben-Hur e seu outrora amigo, Messala. Mais que um drama intimista, era político.

Totalmente focado no drama, Wyler delegou à equipe de segunda unidade (Andrew Marton, Yakima Canutt e o diretor italiano Mario Soldati) a realização da cena mais famosa, a corrida de bigas. Gore Vidal era um dos roteiristas. Gay assumido, sempre se vangloriou de ter feito da relação de amor e ódio de Judá e Messala a história de um par gay. Charlton Heston, que ganhou o Oscar de ator, nunca percebeu. “Era tão reacionário que teria caído fora”, ironizava Vidal. 

 

Rodrigo Santoro, ator

‘Ninguém vive o Cristo impunemente’

Quando iniciou sua carreira em Hollywood, Rodrigo Santoro quase não falava. Agora, ele não só fala como é o Verbo, a palavra do filho de Deus.

Como você se preparou para o papel?

Como sempre faço, mergulhando de forma profunda na história e nas motivações profundas do personagem. Dessa vez, é o mais icônico que já fiz. A ioga me ajudou no processo de interiorização, mas o mais difícil foi o depois. Tenho tentado ser um homem diferente. Ninguém vive o Cristo impunemente. Mas é difícil levar adiante sua mensagem de amor no mundo atual.

Como foi ficar preso naquela cruz?

Filmamos em Matera, uma das mais belas cidades italianas, onde Mel Gibson fez o Cristo dele. Eu ali naquela cruz, quase nu. Na noite anterior, havia nevado. Um frio do cão. Eles (a produção) tentavam me manter aquecido. Foi um exercício de humildade. Lá pelas tantas, não sentia mais os membros. Aquele ‘Tudo está consumado’ veio do fundo, visceral. 

 

 

 

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