Jabor se diz precursor do reality show

Ao longo de sua carreira, Arnaldo Jabor realizou oito filmes - oito e meio, se não achasse presunção evocar o número que faz a ponta com o grande Federico Fellini. O meio foi justamente seu curta de estréia, nos anos 60, O Circo. O oitavo é um filme quase desconhecido, feito para a TV da França, com a participação de atores brasileiros e europeus. Chama-se Amor à Primeira Vista, é de 1990 e tem cerca de 40 minutos de duração. Desde então, Jabor trocou a câmera pelo laptop, adotou o jornalismo como forma de expressão e virou cineasta das palavras. Escreve às terças, no Estado. Pode-se não gostar, eventualmente, do que ele escreve - toda unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues -, mas nunca negar a destreza de Jabor na utilização das palavras. A qualidade dos diálogos de Toda Nudez Será Castigada pode ser atribuída a Nelson Rodrigues, o autor da peça filmada por Jabor. Mas os argumentos e diálogos dos filmes que compõem a chamada trilogia entre quatro paredes - Tudo Bem, Eu Te Amo e Eu Sei Que Vou Te Amar - são dele. O último até virou peça. A partir de amanhã, o cineasta Jabor está de volta no Centro Cultural Banco do Brasil, que programou um ciclo, em DVD, formado por cinco filmes. As duas adaptações de Nelson - a outra: O Casamento - e os filmes da trilogia. Jabor conversa ao telefone com a reportagem do Estado. Surpreende-se com a realização do ciclo. "É o típico caso em que o mostrado não sabe que está recebendo uma mostra." Pode lamentar que O Circo e Opinião Pública estejam fora da programação, mas agradece aos deuses que Pindorama também esteja fora do circuito. Jabor não tem meias-medidas. Define o próprio filme como um dos piores já feitos. É o mais alegórico, o mais cinemanovista dos seus filmes e lhe dá razão quando ele critica o Cinema Novo, que mudou a face do cinema brasileiro nos anos 60, chamando-o de "masturbatório". Com Opinião Pública, Jabor acha que foi o verdadeiro criador dos reality shows que hoje fazem sucesso na TV do País. Foi pioneiro na arte de confinar as pessoas. Selecionou uma família representativa da classe média, trancou-se com ela (e a câmera) dentro de casa. Criou situações, mas tentou interferir o mínimo possível. O resultado é um documentário que até documentaristas como o grande João Moreira Salles cultuam como genial. João acha que Jabor foi pioneiro nessa coisa de colocar na tela a cara do brasileiro médio. O próprio Jabor explica-se: "Minha geração era muito politizada, muito esquerdista. Acreditava na luta de classes e na polarização classe dominante e classe dominada, burguesia e trabalhadores." Com Opinião Pública, ele sabe que fez um estudo de comportamentos que colocou na tela a estupidez da classe média. Desde então, trocando o documentário pela ficção, foi sempre um crítico severo da sociedade brasileira, escancarando as misérias e os problemas da classe média e da burguesia nacionais. Gosta mais de alguns filmes do que outros: Toda Nudez, Tudo Bem, Eu Sei Que Vou Te Amar. Sua preocupação é saber se o ciclo é em DVD ou cinema porque isso faz uma diferença enorme no caso de O Casamento. Ele remontou, para o lançamento em DVD, o filme de 1975. Acha que ficou muito melhor - ficou mesmo. O Casamento antigo era alegórico demais, excessivo demais. Hoje Jabor acha que fez o filme com a intenção deliberada de desagradar o público, de chocar a massa de espectadores. "Queria agredir as pessoas, sacudi-las do seu torpor", define. Limpado de seus excessos, O Casamento ficou melhor, mais denso, mais forte. Por que falar sobre a classe média e a burguesia? "Porque é o universo que conheço; nele tenho minhas origens familiares." Acredita, como Fellini, que o cinema é uma arte ligada à subjetividade, que sua única objetividade é ser subjetivo, para expressar a visão do autor. Tem planos de voltar a filmar, mas se o fizer será pelo prazer. O jornalismo já preenche sua vontade de expressar-se. E não tem as duas características que, segundo Jabor, quase matam o diretor brasileiro, sempre sujeito a um jogo de ansiedade e frustração. "É muito difícil conseguir dinheiro, fazer o filme, lançá-lo." Acha que, com tantos problemas - e tantos inimigos -, o fato de o cinema brasileiro renascer sempre é prova de uma grande capacidade de resistência. Mais que isso: necessidade. "O cinema está em nosso sangue", diz. O Cinema de Arnaldo Jabor. Terça, às 16 horas, sábado, às 14 horas, domingo, às 18 horas, Toda Nudez Será Castigada/73; terça, às 18 horas, quarta e sábado, às 16 horas, O Casamento/75, dur. 96 min., com Adriana Prieto, Paulo Porto. Quarta e sábado, às 18 horas, quinta, às 16 horas, Tudo Bem/78. Quinta, às 18 horas, sexta, às 16 horas, domingo, às 14 horas, Eu Te Amo81. Sexta, às 18 horas, domingo, às 16 horas, Eu Sei que Vou Te Amar/86. De terça a domingo. Grátis. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Até 14/4

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