Jabor apresenta na Mostra versão restaurada de <i>Tudo Bem</i>

Há quase três décadas Arnaldo Jaboramargava uma frustração - o melhor roteiro que ele escreveu, ode Tudo Bem, foi filmado meio que na correria em 1978 eresultou num filme aquém de suas possibilidades dramáticas. Osom era insatisfatório, a qualidade da fotografia deixava adesejar e até a mise-en-scène se ressentia da pressa com que Tudo Bem foi feito. Essa pressa tinha um motivo bem preciso -chama-se falta de dinheiro. Passaram-se 28 anos e odesenvolvimento tecnológico está agora possibilitando umverdadeiro milagre. A Mostra fornece a tela para que Jaborapresente nesta sexta-feira, em digital, mais do que a versãorestaurada, a nova versão de Tudo Bem. Tudo bem, mesmo. Com apoio da Casablanca, que foi umaparceira inestimável ("Põe o nome deles, por favor"), Jaborconseguiu corrigir o som, a imagem e - acredite se quiser -reformular os próprios enquadramentos do filme, o que significauma mudança completa, como só as novas tecnologias conseguemproporcionar. Desta maneira, vai ficar mais evidente umaconstatação - Tudo Bem foi um filme premonitório. No fim dosanos 70, em plena ditadura militar, Jabor conseguiu concentrarnaquele apartamento de classe média, em Copacabana, não apenas oPaís, mas a própria globalização, que só surgiria décadas maistarde. Ele fazia uma viagem de carro com Cacá Diegues, atravésdos EUA. Estavam indo de São Francisco, onde O Casamento foraexibido, para Los Angeles. Jabor lia, na época, O Prazer doTexto, de Roland Barthes. Ainda estava sob o impacto daconfusão de uma reforma que fizera em sua casa, que foi invadidapor operários. Ali mesmo, naquele carro, o diretor teve a idéiado que viria a ser Tudo Bem, primeiro episódio de uma trilogia(entre quatro paredes) que prosseguiu com Eu Te Amo, em 1980,e Eu Sei Que Vou Te Amar, em 1984. O autor concorda com o repórter - seu cinema, desde oalegórico Pindorama, de 1970, evoluiu do macro para o micro.Partindo de uma interpretação épica do Brasil, Jabor foireduzindo, não a ambição nem o alcance, mas o foco. Filmou umafamília em transe (Tudo Bem) e, reduzindo cada vez mais ospersonagens, filmou os casais de Eu Te Amo e "Eu Sei Que VouTe Amar", sendo que, neste último, há uma superposição demonólogos. "Agora posso dizer que ´Tudo Bem´ é meu melhor filme" ele avalia. O roteiro ganhou a perfeita correspondênciadramática, cristalizando aquilo que Glauber viu na época - "TudoBem" é, historicamente, a antítese de "O Anjo Exterminador", deLuis Buñuel, ele dizia. A casa vira expressão psicanalítica dos conflitos que oPaís vivia, com personagens que compõem um painel da própriadiversidade cultural (e regional) do Brasil. O dono da casa é umvelho udenista, seus filhos sonham com a americanização eoperários e empregadas permanecem atrelados ao misticismo e àcarnavalização. E há o elenco - Paulo Gracindo, FernandaMontenegro, Zezé Motta, Paulo César Pereio, Stênio Garcia, JoséDumont, Regina Casé, Maria Sílvia, Luiz Fernando Guimarães. Omelhor de tudo é que Tudo Bem precede o lançamento, no fim denovembro, de uma caixa de DVD com todos os filmes de Jabor,incluindo o que ele fez na França, em 1990, e permanece inéditoaqui - Amor à Primeira Vista. Jabor adora uma polêmica. TudoBem, para ele, é o País atual, que não está nada bem. Críticodo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele se define como daesquerda progressista, não da burra. E provoca - "Eu quero queme odeiem." Tudo Bem (1978, 110 min.) - Bombril 1. Av. Paulista, 2.073,(11) 3285-3696. Hoje, 21 h

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.