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Já que virou tudo 'anomalia', as cores do 'O Menino e o Mundo' encantam

Longa destaca-se pela história e inventividade dos personagens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2016 | 04h00

Kaufman a pergunta básica - será ele um leitor de Jorge Luis Borges? Como o escritor argentino, Kaufman ama os labirintos. Quero Ser John Malkovich é sobre um homem que abre uma porta e entra na cabeça do ator famoso. Kaufman ama não só os labirintos, mas os da mente. Nada mais ‘borgesiano’. Em Anomalisa, sua animação codirigida por Duke Johnson que concorre ao Oscar da categoria, Kaufman faz piada com o Brasil. Diz que toda a América Latina fala espanhol, só os brasileiros falam português, e isso é uma ‘anomalia’. O filme dele é sobre a importância de se romper com o padrão. Anomalisa rompe, até por ter nu frontal e cena de sexo. E Kaufman, com certeza, não devia estar pensando nisso, mas junte Brasil com anomalia, Oscar e animação, e chega-se ao óbvio - o fato de o Brasil ter sido indicado para o Oscar pelo filme de Alê Abreu, O Menino e o Mundo, é uma anomalia.

Embora existam bons animadores fazendo filmes no Brasil e até em Hollywood - Carlos Saldanha -, o Brasil não tem tradição no gênero. Tivemos pioneiros que perseguiram o sonho da animação de longa-metragem, mas poucos conseguiram. A distribuidora de O Menino e o Mundo nos EUA acha que a pior parte já foi vencida, e foi justamente chegar entre as cinco animações indicadas para este ano. O Menino destaca-se pela história, pela inventividade dos personagens e das cenas, pela riquíssima paleta de cores. Alê Abreu compensou com criatividade o orçamento reduzido de que dispunha.

Seu filme é migalha perto de Divertida Mente, de Pete Docter, da Pixar. Mas a viagem pela mente da garota, para conhecer seus sentimentos - alegria, tristeza, raiva etc -, também valoriza sua paleta, porque cada sentimento possui uma cor, e as cores terminam sendo personagens de Divertida Mente, como no Menino. E já que ‘Docter’ - que muita gente define como o ‘doutor’ da Pixar - viaja pela mente da garota, então Divertida Mente tem muito a ver com Anomalisa e o cinema de Charlie Kaufman em geral. Vamos logo esclarecendo. Kaufman pode ser um roteirista cult, mas os filmes só ‘acontecem’ quando os diretores são bons, Spike Jonze e Michel Gondry. Anomalisa não é ruim como Sinédoque Nova York, sua direção anterior - seria impossível. Mas não empolga. Shaun, o Carneiro, de Richard Starzak e Mark Burton, é uma animação de massinha e a mais infantil das concorrentes. É divertida, lúdica, uma graça. E finalmente, As Memórias de Marnie - até certo ponto, outra anomalia. Os Estúdios Ghibli não se repetem, inovam. E essa história de amor e amizade é bonita. A lógica é que dê Divertida Mente. Mas as cores e a pureza do Menino podem amolecer o coração dos votantes da Academia.

 

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