J. Lee Thompson é lembrado em DVD e TV paga

Sua morte não foi muito sentida: passou quase despercebida na mídia. Talvez tenha sido uma injustiça. Se a última fase da carreira de J. Lee Thompson foi marcada pela mediocridade - depois que ele virou homem de confiança de Charles Bronson, assinando as fantasias violentas do astro da série Desejo de Matar -, o começo foi bem mais interessante. Talvez Thompson nunca tenha sido grande, mas fez bons filmes no final dos anos 1950 e início dos 60. É tempo de lembrar essa fase do diretor que morreu de problemas do coração em Sooke, na região canadense de British Columbia, no dia 30 de agosto. Thompson tinha 88 anos. É o diretor de Os Canhões de Navarone, que passa hoje no Cinemax Prime, da TVA e DirecTV. É o filme mais conhecido do cineasta, mas com certeza não é o melhor. Conta a história do grupo que desembarca numa ilha grega com a missão de destruir os canhões que os nazistas instalaram num ponto estratégico e que lhes permite controlar a navegação em toda a área, abatendo as embarcações dos aliados. O comando de Navarone é liderado por Gregory Peck e dele fazem parte Anthony Quinn, David Niven, Stanley Baker, que estrelou clássicos de Joseph Losey, Anthony Quayle e James Robertson Justiçe. E existem as mulheres que se integram ao grupo: Irene Papas e Gia Scala. São responsáveis pela cena mais intensa do filme, quando Peck descobre a existência de um informante dos nazistas entre os seus comandados. Você vai entender por que Michael Cacoyannis não teve dúvida em chamar a bela e bárbara Irene para estrelar Electra, a Vingadora no ano seguinte (Navarone é de 1961). O filme é famoso porque, entre outras coisas, marcou o início da reabilitação de Carl Foreman, o roteirista de Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, que havia se exilado na Inglaterra para fugir às listas negras do macarthismo. Foreman escreveu e produziu Os Canhões de Navarone. Talvez pudesse ter dirigido, também. Dois anos mais tarde, em 1963, ele tentou sua única experiência na direção e fez justamente Os Vitoriosos, uma aventura antibelicista desenrolada durante a 2.ª Guerra Mundial, mais lembrada por seu elenco feminino que inclui - olhem só que time - Romy Schneider, Jeanne Moreau, Melina Mercouri, Senta Berger e Elke Sommer. Nunca houve outro filme de guerra com mulheres mais deslumbrantes. Foreman preferiu chamar J. (de Jack) Lee Thompson para a direção. Havia visto, com certeza, os bons filmes do cineasta, na época: Uma Sombra em Sua Vida e Marcados pelo Destino. Do set de Navarone, Thompson sairia direto para fazer, no mesmo ano, um filme que virou cult (e que Martin Scorsese refilmou): Círculo do Medo. E aí ocorreu a débacle: rotulado como diretor de ação, ele foi cooptado por Hollywood e iniciou uma desastrosa série de filmes que foram afundando sua reputação inicial: Os Reis do Sol, Taras Bulba. Ainda fez um razoável A Batalha do Planeta dos Macacos, mas afundou de vez a partir da associação com o cara-de-pedra Bronson. Ela não começou tão mal, é verdade: O Grande Búfalo Branco transpõe para o Velho Oeste, com alguma classe, a história de Moby Dick, o clássico de Herman Melville. Uma Sombra em Sua Vida foi como se chamou The Woman in a Dressing Gown no País. Esse filme de 1957 mostra Yvonne Mitchell como uma dona de casa cujo marido se envolve com uma garota no seu escritório. Embora ninguém tenha se lembrado de fazer a ligação de Thompson com o free cinema, o filme possui informações sobre a vida social da classe trabalhadora inglesa na época e antecipa a revolução dos angry men que, a partir do teatro, iniciaram a revolução logo transferida para o cinema e que foi impulsionada, também, pelos êxitos colhidos pela nouvelle vague ali perto, na França. Yvonne era uma atriz extraordinária, a maior da Inglaterra na época, e o filme de Thompson deu-lhe o prêmio de interpretação no Festival de Berlim. Ela voltou a trabalhar com o diretor em Marcados pelo Destino, de 1959, e, essa sim, é a obra-prima do diretor (mesmo que o filme talvez não seja realmente uma obra-prima). Thompson introduziu sangue novo no policial com a história da menina que testemunha um crime e é cooptada a colaborar com a polícia, mas o assassino está por perto e ela vacila. Yvonne é, mais uma vez, maravilhosa. Horst Buccholz humaniza e torna sedutor o criminoso, mas se esse raro filme - pungente e sensível - consegue renovar e até revolucionar as histórias de caçadas policiais, é pela relação que se estabelece entre o policial e a garota, interpretados por pai e filha na vida real, John Mills e Hayley Mills, que foi para Hollywood, contratada pela Disney, e virou mito e referência para adolescentes de todo o mundo nos anos 1960. Logo em seguida veio a experiência de Os Canhões de Navarone e o sucesso internacional do filme foi tão grande que iniciou uma série de aventuras de guerra que também alcançaram repercussão: Fugindo do Inferno, O Mais Longo dos Dias e o eletrizante Os Doze Condenados, de Robert Aldrich, que pulverizou as restrições que o Código Hays, vigente na indústria, impunha à amostragem da violência nos filmes. E logo depois de Navarone veio Círculo do Medo, com sua perturbadora história do ex-presidiário que tenta se vingar do advogado que acredita ter sido responsável por seu encarceramento. Foi o filme que Scorsese refilmou como Cabo do Medo, colocando Robert De Niro e Nick Nolte nos papéis de Robert Mitchum e Gregory Peck. O remake é assustador, o original é mais assustador ainda. Ambos os filmes estão disponíveis nas lojas, em lançamentos recentes de DVD. Mitchum, como criminoso sexual, é mais perturbador do que De Niro. Traz para o papel a ambivalência do tipo que interpretou em outro cult: O Mensageiro do Diabo, único filme dirigido pelo ator Charles Laughton.Os Canhões de Navarone, hoje no Cinemax prime, da TVA e DirecTV, às 21h30. Círculo do Medo, DVD da Columbia, R$ 39,90.

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