<i>Vênus</i>, um estudo do desejo imortal, com Peter O´Toole

Talvez Peter O?Toole não consiga derrotar Forest Whitaker na premiação do Oscar neste domingo. Whitaker é dado como favorito por sua interpretação de Idi Amin Dada em O Último Rei da Escócia e deve mesmo ganhar. Mas que O?Toole dá um show em Vênus, que estréia nesta sexta, 23, lá isso ninguém vai poder negar. Ok, o mais óbvio seria dizer que o trabalho de Whitaker é mais difícil, caracterizar um ditador a ponto de se parecer extremamente com ele, até mesmo do ponto de vista físico. Ao passo que O?Toole vive algo muito mais próximo de si - um velho ator, cheio de talento e senso de humor, que sente estar vivendo o ato final da vida e deseja fazer dele algo de significativo. Tudo bem, mas aposto que daqui a alguns anos já teremos esquecido do Idi Amin de Whitaker e lembraremos com clareza do Maurice de O?Toole. Engraçado e amargo Quem é Maurice? Um veterano que talvez já não espere nada da vida, a não ser levá-la da maneira mais agradável possível. Enfrenta a decadência junto com alguns amigos como Ian (Leslie Phillips), que hospeda uma sobrinha-neta vinda do interior, Jessie (Jodie Whittaker). Jessie vai entrar, em princípio de forma lateral, na vida dos velhinhos e, depois, em especial, na de Maurice. Mas o que é o filme? Uma versão mais avançada na idade das aventuras de uma Lolita do interior? A mensagem edificante de que os sentimentos podem dar sentido a uma vida? Uma comédia ligeira? Um drama da terceira idade? Provavelmente, Vênus tem a ver com tudo isso. Às vezes é engraçado, outras amargo. Agridoce, como aquelas ótimas comidas chinesas. E, falando em culinária, temperado por algo em que os ingleses são especialistas - o senso de humor refinado, a auto-ironia, que a tudo relativiza e coloca em perspectiva. Essas características tomam forma em especial nos diálogos agudos, algo raro no cinema contemporâneo, pouco inspirado tanto do ponto de vista da imagem como das palavras. Mas, se Vênus parece ser tudo isso, comédia, drama, obra de situações jocosas, pode também ser, em seu núcleo, uma interessante discussão sobre o desejo. E aí sim ganha relevo, e cor. Não toma esse título por acaso. Há uma cena fundamental em que Maurice leva Jessie para ver um quadro na National Gallery. Um quadro qualquer? Não. Trata-se da A Toillete de Vênus, de Diego Velázquez (1599-1660). Uma mulher nua, Vênus, deitada de costas, contemplando-se no espelho, seguro nas mãos por outra figura mitológica, Eros. Maurice, velho, medita sobre a morte. Maurice, homem, medita sobre o amor. E sobre o desejo. Medita sobre como ele não se extingue, mas apenas se modifica com a idade. A partir de então, Jessie passa a chamar-se Vênus. Há algo de idealizado aí, pois Jessie não se parece exatamente a uma figura mítica de mulher. Vista de maneira objetiva, talvez não passe de uma interiorana deseducada, mais jovem do que bonita, que chega a Londres com algumas ambições modestas e tem de se entreter com velhotes que deve achar tediosos ao extremo. Vênus e Jessie Mas o que são o amor e o desejo senão idealizações construídas a partir de uma imagem real? O diretor Roger Michell (o mesmo de Um Lugar Chamado Notting Hill) parece bem consciente dessa fabricação mental de Maurice e também transforma os espectadores em cúmplices dessa operação. Quanto a Peter O?Toole, parece por completo integrado na pele de um personagem que tem tanto de sublime como de ridículo. Como se sabe, o mais frágil animal da natureza é o homem que deseja. Maurice sabe disso. Vênus/Jessie também sabe. Agora, o homem que deseja é frágil ao mesmo tempo em que é forte pois consegue dar um sentido, mesmo que seja um sentido trágico, ao seu ato final. Por isso também não é gratuito que esse personagem seja um ator. Alguém habituado a perceber os diferentes papéis que assumimos ao longo da vida e que, somados, dão como resultado essa entidade precária chamada identidade. Quem é Maurice, afinal? O ator que foi um homem de extraordinária beleza em sua juventude? Um idoso inquieto, que não conhece seu lugar e não encontra repouso na reta final da existência? Um velho sátiro e debochado? Alguém feliz porque consegue se manter ativo em idade avançada, ou um vampiro da juventude, sedento de sangue novo? Peter O?Toole consegue tocar todas as notas dessa melodia contraditória. Vênus - (Venus, Ing/2006, 95 min.) - Comédia. Dir. Roger Michell. 18 anos. Cotação: Bom

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