<i>Ventos da Liberdade</i>, vencedor da Palma de Ouro em Cannes

Num encontro social de realizadorescom os júris do Festival de Cannes do ano passado, Ken Loachestava mais interessado em falar com o repórter sobre a crise domensalão do que sobre seu filme The Wind That Shakes theBarley, que agora estréia no Brasil, quase um ano depois, com otítulo de Ventos da Liberdade. Em dois ou três festivaisanteriores (Berlim e Cannes), Loach já estava interessado noBrasil de Luiz Inácio Lula da Silva. Para um autor com seuperfil de esquerda, o Brasil virara um laboratório a serexaminado com toda atenção. Em maio do ano passado, apreocupação era mais que justificada. Loach queria saber se Lulaainda tinha base popular e se a crise não era forjada pelaimprensa ?burguesa?. Mas ele estava feliz com a acolhida aVentos da Liberdade. Foi o primeiro filme da competição, exibido na primeirasessão para a imprensa. No fim, Ventos da Liberdade ganhou aPalma de Ouro que Loach vinha perseguindo havia anos. "Foi umfilme que ficou conosco e ao qual voltávamos sempre, não apenaspor sua alta qualidade como cinema, mas pelo grau decomprometimento social e político", justificou o presidente dojúri, Wong Kar-wai, autor do visceral Felizes Juntos e doselegantes Amor à Flor da Pele e 2046, filmes que,aparentemente, não têm nada a ver com a estética engajada deLoach. Dez anosVentos da Liberdade foi o filme que Loach quis fazerdurante dez anos. Situa-se na Irlanda, nos anos 20. Em 1990, elejá havia lançado uma verdadeira bomba na Croisette, aoapresentar Agenda Secreta, sobre as mirabolantes atividadesdos serviços secretos britânicos na Irlanda do Norte. O alvo deAgenda Secreta era o thatcherismo - Loach, como Stephen Frears, via na Dama de Ferro, a conservadora Margaret Thatcher, umainimiga da liberdade disfarçada de heroína da economia demercado. O objetivo, agora, é outro. Loach, por linhas tortas,quer falar sobre Tony Blair, que também já recebeu uma sutilfarpa de Stephen Frears em A Rainha. Lembram-se? Ao salvar a monarquia britânica, Blair, nofilme de Frears, goza de uma popularidade excepcional, mas arainha (Helen Mirren) lhe diz que se prepare para o gosto amargoda rejeição do público, que veio agora, e por outro motivo. Acrítica, tanto de Loach quanto de Frears, vale destacar, é aopoder, mais do que a conservadores ou trabalhistas. Ventos daLiberdade conta a história deste jovem, Damien, que integra umabrigada de combate aos ocupantes britânicos. É interpretado porCillian Murphy, ator que também está presente em outra estréiade sexta-feira, 13, nos cinemas brasileiros, Sunshine - AlertaSolar, de Danny Boyle. Como toda guerra, a da Irlanda foimarcada por todo tipo de atrocidades. Uma guerra fratricida, queterminou por lançar irmão contra irmão. Após a violência doscombates, que tipo de diálogo é possível desenvolver com osopressores? Como e o que negociar.Pancada em Blair Ken Loach repetiu diversas vezes em Cannes que não quisfazer um filme antibritânico e sim, um filme crítico aoimperialismo de Sua Majestade. Como ele disse, "se discutirmosos erros da administração que gerenciou aquela crise no passado,talvez possamos discutir, também, os erros da atual, nogerenciamento desta outra crise". E dê-lhe pancada no premierTony Blair, o trabalhista que salvou a monarquia em nome dapreservação das instituições e, mais recentemente, provocoupolêmica ao se alinhar ao presidente George W. Bush, na questãodo Iraque. O último ano não melhorou nada a situação na região eBlair enfrentou há pouco a crise dos britânicos presos no Irã -e que admitiram, depois, estar em missão de espionagem. Carreira longa"A lutade um país pela liberdade se tornou um tema recorrente nastelas", explicou o veterano Loach, 71 anos de idade e 39 decarreira no cinema, iniciada por A Lágrima Secreta (PoorCow), em 1968. "É sempre oportuno tratar do assunto porquevolta e meia exércitos de ocupação estão se instalando nos maisvariados países, sob os mais variados pretextos, e provocam areação das populações." Em maio de 2006, ele foi incisivo - "Nãopreciso dizer em que lugar a Grã-Bretanha tem hoje, eilegalmente, um exército de ocupação." Para Loach, a guerra da Irlanda do Norte, que originoufilmes como O Delator, de John Ford, e A Filha de Ryan, deDavid Lean, é um assunto que ainda não está resolvido noimaginário coletivo dos britânicos. Como disse o ator CillianMurphy, "este não é apenas mais um filme. Acho que as famíliasde todos os envolvidos na produção e na realização tinham laçoscom essa história. Todos nós temos um avô, ou bisavô, que lutouou foi morto na Irlanda." E Loach acrescentou - "As autoridades,em qualquer época, sempre tentaram nos fazer crer que o assuntoé indesejado, mas eu acho que é uma história excepcional, quenos permite tirar conclusões sobre outras guerras de ocupação."Esse mesmo mal-entendido, ou má-fé, costuma ser aplicado(a) aseu cinema. "Porque fico falando de revolução e utopia, tambémquerem, muita gente, fazer crer que é um cinema anacrônico,principalmente neste mundo globalizado em que vivemos." Bem maistarde, ao agradecer pela Palma de Ouro, Loach falou de suafelicidade de estar recebendo o prêmio mais importante da maiorfesta de cinema do mundo. "Espero que nosso filme seja umpequeno passo no sentido de levar os britânicos a acertar contascom seu passado imperialista. Se nós ousaremos encarar a verdadesobre o passado, talvez tenhamos a força de encarar a verdadetambém sobre o presente." Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes the Barley, 2006, 127 min.) - Drama. Dir. Ken Loach. 14 anos. Cotação: Ótimo

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