<i>Uma Noite no Museu</i>, diversão garantida para a criançada

Uma Noite no Museu, de Shawn Levy, éuma produção dirigida para o público infanto-juvenil. Ainformação é importante para sabermos, de antemão, o que podemosesperar do filme. Segundo os cânones atuais, um produto dessetipo deve ter diversão, muita correria, algum suspense, poucacomplicação e um fundo edificante. Produção de Cris Columbus (deEsqueceram de Mim), Uma Noite no Museu tem tudo isso. Todasas variáveis da fórmula se encaixam em seus lugares. O protagonista da história é Larry Daley (Ben Stiller),sujeito que tem vários problemas na vida. Um deles é que nãoconsegue se fixar num emprego. O outro, decorrente deste, é quefica mal aos olhos do filho, a quem vê de vez em quando porqueestá separado da esposa. Pior: o novo marido de sua ex-mulher éum protótipo daquilo que na sociedade americana se chama devencedor. Um winner de boa cepa, trabalha na Bolsa de Valores ejá está conseguindo certa ascendência sobre o enteado (JakeCherry). Portanto, arranjar e depois segurar o emprego de vigianoturno no Museu de História Natural é para Larry não apenas umaquestão de sobrevivência material, mas principalmentepsicológica. O filme tem alguns trunfos interessantes, como aengraçada trinca de veteranos, Michey Rooney, Dick van Dyke eBill Cobbs, que fazem os vigias noturnos a serem substituídospor Larry. Outro ponto forte, é o sempre engraçado RobinWilliams no papel de uma estátua do presidente TheodoreRoosevelt, aquele do Canal do Panamá, ideólogo de uma políticaexterna agressiva, quase à la Bush, e partidário daquilo que elemesmo chamou de diplomacia do "big stick", o popular cacetão.Dizia Roosevelt que, quando não se podem resolver as questões embases civilizadas, bem, é conveniente dispor de um bom tacape esaber usá-lo na hora certa. Coisas do passado, como se sabe. Mas claro, o Roosevelt do museu que, como seus colegasempalhados, ganha vida durante a noite, não exibirá no filmeessa desagradável truculência do personagem real. Ele é todosabedoria e compaixão. Sofre por ser apaixonado por uma índia decera e não saber como abordá-la e será o guru de Larry quandoeste fraquejar. De resto, o museu inteiro se movimenta durante anoite. Esqueletos de dinossauros ganham vida, caubóis combatemlegiões de romanos, hunos brigam com mongóis e assim a históriauniversal ganha vida diante dos olhos atônitos de Larry. O problema do filme é como se segurar durante quase duashoras (108 minutos) na base de uma boa sacada só. Daí o fato desurgirem várias "barrigas" para preencher o tempo ocioso.Algumas dessas histórias paralelas até que não são más, como,por exemplo, quando parte dos habitantes do museu decideconferir como é a vida "lá fora". Efeitos especiais Mas, no geral, o tempo é preenchido com correrias dentrodo museu, e depois da admiração inicial que o espectador possasentir diante dos efeitos especiais bem realizados, estes tendema cansar, pela simples repetição. Outra parte do tempo é gastano alinhavo melodramático que supostamente dá ao filme seucaráter edificante - a reabilitação do pai diante do filho, umaquestão sempre presente em sociedades modernas, com grandenúmero de casais separados. E, mais ainda hoje em dia, com asmulheres há muito senhoras do mercado de trabalho e o papeltradicional do pai, como provedor, conseqüentemente muitofragilizado. No caso mais agudo de Larry, ele tende a ser uma espéciede escória da sociedade americana, aquele tipo de cara que nãoencontra emprego, e quando encontra, não consegue segurá-lo.Pouco confiável socialmente, não tem credibilidade para ser umpai. Precisa então provar que não é nada disso, domando asaparentemente incontroláveis figuras do museu. E assim o filmeganha seu aval "humanista" e pode se orgulhar de contribuir paraalgum tipo de mensagem positiva, além de proporcionar honestadiversão. Há outro subenredo também interessante, o da antropólogatriste (Carla Gugino) que não consegue terminar sua tese sobreos primeiros habitantes da América e receberá inesperada ajudado homem comum Larry Daley. Há toda uma ideologiaantiintelectualista embutida aí, junto com a crença na força dohomem simples, que consegue lutar contra a adversidade com aspróprias mãos. Assim, Larry estará duplamente reabilitado:diante do filho e diante do saber oficial. Enfim, mesmo no maishumilde dos filmes se pode aprender algo sobre o modo defuncionamento mental da sociedade que o produziu. Mas, claro, o que interessa mesmo é se as crianças vãose divertir ou não. E a resposta vem da bilheteria: nos EstadosUnidos, Uma Noite no Museu arrebentou a boca do balão - hátrês semanas em cartaz, continua na ponta da tabela tendo jáarrecadado mais de US$ 160 milhões. É o que conta. Vamos ver sepor aqui repete a dose.Uma Noite no Museu. (EUA/2006 - 105 min.) - Comédia. Dir.Shawn Levy. Livre. Cotação: Regular

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