Itália lamenta mais um Leão perdido em Veneza

Nada a contestar quanto ao Leão de Ouro atribuído a Vera Drake, de Mike Leigh, muito menos ao prêmio de interpretação feminina vencido pela intérprete do filme inglês, Imelda Stauton, no papel de pacata dona de casa que mantém ocupação paralela em sua vida. Também a atribuição do troféu de melhor ator a Javier Bardem por Mar Adentro, drama de Alejandro Amenábar era mais ou menos esperada. Mas Mar Adentro ganhou ainda o Leão de Prata, o segundo em ordem de importância do festival. Também o troféu de direção, dado ao coreano Kim Ki-duk por Binjip, caiu muito bem. O que se estranhou foi a ausência de qualquer menção ao mais forte concorrente italiano, Le Chiavi di Casa (As Chaves de Casa), de Gianni Amelio. E também o fato de que Wim Wenders, cotado até a véspera com seu Land of Plenty (Terra da Abundância), tenha saído de mãos abanando. Mas é assim mesmo. Veneza tem apenas sete troféus a dar e os cinco principais (melhor filme, direção, especial do júri, ator e atriz) não podem ser divididos, por regulamento. Quanto aos dois restantes, a Osella, pela contribuição técnica, foi para o japonês O Castelo Mágico de Howl, de Hayao Miyazaki, e o Marcello Mastroianni, para ator emergente, para os dois intérpretes do italiano Lavorare con Lentezza, Marco Luisi e Tommaso Ramenghi. Foi tudo o que a Itália ganhou, mesmo jogando em casa. Aliás, a comparação com o futebol, que não vence uma copa do mundo desde 1982, foi muito usada nas discussões de TV que se seguiram à premiação. "Não ganha porque os outros jogam melhor", era mais ou menos a conclusão a que se chegava, com certa melancolia e obviedade. O fato é que, depois da grande geração de Fellini, Antonioni, Visconti e tutti quanti, o cinema local tem encontrado dificuldades para se renovar. Mas é fato também que Amelio desta vez tinha uma boa carta na mão e poderia ter vencido.A imprensa escrita, em geral, queixou-se da ausência de Le Chiavi di Casa entre os premiados. La Repubblica manchetou: "Veneza desilude o nosso cinema: vence Leigh, Amelio sem prêmios". Il Corriere della Sera usa verbo mais duro em seu título: "Veneza trai Amelio, vence o filme sobre o aborto". Il Gazzettino: "Leão para Vera Drake, Itália reprovada". La Stampa é o único que não se queixa. Com o título "O cinema não sonha mais" destaca o fato de que não havia histórias felizes entre as concorrentes ao prêmio. Nenhuma publicação põe em dúvida a qualidade do vencedor, mas opinam que Amelio não deveria ter sido esquecido. Lembram também que o concorrente local dispunha de lobby poderoso por ter sido produzido pela RAI (Rádio e Televisão Italiana). O próprio Amelio, no entanto, recusou o papel de vítima. Com elegância pouco habitual entre cineastas derrotados, disse: "O júri agiu bem, foi corajoso e trabalhou com critérios. E não vou cair no lugar-comum de dizer que o verdadeiro julgamento será o do público, quando o filme for lançado". Digno, como seu trabalho, que merecia melhor sorte. O júri, no entanto, presidido pelo britânico John Boorman optou pelo trabalho de Mike Leigh, o mais sólido do ponto de vista dramatúrgico. Poderia ter sido diferente? Sem dúvida. Tanto é que, após a confusa premiação, realizada no restaurado Teatro La Fenice, o vencedor confirmou, de forma irônica, o que já se murmurava pelos bastidores: Vera Drake havia sido esnobado pela mais badalada competição cinematográfica européia. Acariciando o seu Leão de Ouro, foi irônico: "Dedico o prêmio ao Festival de Cannes, que recusou meu filme e assim tornou possível a sua vitória na Itália".Aliás, em sua fala de agradecimento, Leigh soltou farpas para todos os lados. Disse também que todos se queixavam da dificuldade de fazer cinema, mas que realizar um filme como Vera Drake, empenhado, social e de "orçamento ridiculamente baixo" era ainda mais complicado. Um desabafo interessante. Afinal, uma produção low budget ganhou o melhor prêmio num festival cercado de riqueza por todos os lados, explícita em especial no desfile de celebridades de Hollywood, que chegavam com ares de potentados ao Lido para divulgar filminhos chinfrins, porém milionários. Basta lembrar que somente a pirotécnica festa de lançamento do desenho animado Shark Tale, na Praça São Marcos, custou cinco milhões de euros à DreamWorks, de Steven Spielberg. Aliás, a mega presença do cinema de Hollywood em Veneza foi muito comentada durante todo o evento e não poderia faltar ao balanço do festival. Com a nova direção de Marco Müller, Veneza pretende resgatar a primazia mundial, há muito perdida para Cannes. Para isso, entende que deve colocar suas fichas no charme, quer dizer na presença das grandes estrelas, que provocam suspiros nos fãs e atraem as câmeras das TVs. E para isso precisa de Hollywood. Que, por sua vez, elegeu os grandes festivais europeus como plataformas de lançamento mundial para seus produtos. Entre essas duas conveniências partilhadas, a dos festivais e a das majors, fica espremida a mostra competitiva, na qual o cinema de arte do planeta deveria aparecer e respirar. E esta teve um nível bom, mas não excepcional. Vera Drake, de fato, é um belo filme. Nele, tudo é sólido, do roteiro à interpretação. Nota-se que o diretor Mike Leigh tinha todo o controle nas mãos e assim assina uma mise-en-scène límpida, da qual qualquer excesso foi limado. Pensando bem, é um trabalho de ourivesaria cinematográfica. O mesmo não se pode dizer de Mar Adentro que, apesar de suas qualidades, apresenta algumas arestas visíveis de apelo melodramático, disfarçadas pela atuação magnífica de Javier Bardem, que põe na prateleira sua segunda Coppa Volpi - a primeira deve-se a Antes que Anoiteça, de Julian Schnabel, com a qual venceu como melhor ator em Veneza-2000 no papel do poeta cubano Reynaldo Arenas. Mas não vejo em Mar Adentro um trabalho de nível superior ao de As Chaves de Casa, o filme de Gianni Amelio ignorado pelo júri. Já a premiação de Binjip com o troféu de melhor diretor para Kim Ki-duk parece mais do que apropriada. Pode-se ir mais além: se o júri quisesse ser ousado, poderia ter dado ao coreano até mesmo o Leão de Ouro. Não haveria nenhum problema e o festival teria se colocado na ponta, com o olho no futuro, dando a vitória a uma cinematografia emergente, da qual pode vir o novo. Binjip foi a grande surpresa do festival, porque, inscrito à última hora, nem se sabia que iria concorrer. Apareceu como "filme-surpresa", uma invenção do diretor Marco Müller, e encantou a todos com a história do rapaz calado que dorme em casas desocupadas até que se apaixona por uma mulher. Filme de grande rigor na realização, quase sem diálogos, consegue unir leveza e profundidade. Esse Kim Ki-duk, autor de Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera, há pouco lançado em São Paulo, dá show de bola. Mas, por enquanto, o jogo tradicional de Mike Leigh, continua mais eficiente. Premiados no Festival de Veneza Mostra oficial Veneza 61        Premiado    Filme   Leão de Ouro - melhor filme:Mike Leigh Vera Drake  Leão de Prata - Grande Prêmio do JúriAlejandro Amenábar Mar Adentro  Leão de Prata - Prêmio Especial pela DireçãoKim Ki-Duk Binjip  Coppa Volpi - melhor atorJavier Bardem Mar Adentro  Coppa Volpi - melhor atrizImelda Staunton Vera Drake  Osella - pela contribuição técnicaHayao Miyazaki O Castelo Mágico de Howl  Prêmio Marcello Mastroianni - ator emergenteMarco Luisi e Tommaso Ramenghi Lavorare con Lentezza  Leão do Futuro - prêmio Luigi de Laurentiis para diretor estreanteIsmaël Ferroukhi Le Grand Voyage  Leão do Futuro - prêmio Luigi de Laurentiis para diretor estreante - Francesco Munzi Saimir  Seção Horizontes - melhor filmeIlan Duran Cohen Le Petits Fils  Seção Horizontes - melhor filme - Menção EspecialVincenzo Marra Vento di Terra  Cinema digital - melhor filmeMania Akbari 20 Angosth  Cinema digital - melhor filme - Menção EspecialLucio Pellegrini e Gianni Zanasi La Vita è Breve ma la Giornatta è Lunghissima  Corto Cortissimo - melhor curta-metragemKamel Cherif Signe d´Appartenence  Corto Cortissimo - melhor curta-metragem - Menção EspecialPeter Foott The Carpenter and His Clumsy Wife 

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