<i>Sonhos com Xangai</i> antecipa volta da China ao capitalismo

Festival de Cannes de 2005. Grandes nomes do cinema mundial concorrem à Palma de Ouro - David Cronenberg, Wim Wenders, Amos Gitai. O júri presidido por Emir Kusturica atribui a Palma de Ouro a O Filho, dos irmãos Dardenne. Distribui os demais prêmios entre Caché, de Michael Haneke (melhor direção), Broken Flowers, de Jim Jarmusch (prêmio especial do júri), Três Enterros, de Tommy Lee Jones (melhor roteiro e melhor ator). Sobra para o diretor chinês Wang Xiaoshuai o prêmio do júri, por Sonhos com Xangai. Ele sobe ao palco emocionado. Diz que Sonhos está enraizado em suas experiências de juventude. Dedica o prêmio a seus pais e a todos aqueles que, como sua família, conheceram aquele destino. Sonhos com Xangai estréia nesta sexta-feira, 9, em São Paulo. É um belo filme, embora o belo também possa ser substituído por forte. Wang Xiaoshuai baseou-se em eventos ocorridos na China, nos anos 60, quando o camarada Mao, ainda imbuído do princípio da Grande Marcha para a construção do comunismo, exortou as populações a abandonarem as grandes cidades para ajudar a desenvolver as regiões mais pobres da China. A protagonista é essa garota de 19 anos cujo pai, nos anos 80, após a morte do camarada Mao, percebe que o futuro da China está no retorno às metrópoles. Tudo o que ele quer é voltar com a família para Xangai, mas a garota não quer. Tem um namorado, amigos, uma vida naquele lugar. Cria-se a tensão familiar. Wang Xiaoshuai encontrou-se com um pequeno grupo de jornalistas para falar de Sonhos com Xangai. Disse que há 12 anos fazia filmes, mas nenhum dos anteriores havia sido visto pelo público chinês. Esperava que a seleção de Sonhos para a competição, em Cannes, ajudasse na circulação de seu filme. "Há dez anos eu já pensava neste projeto e vinha escrevendo o roteiro, mas não havia clima para apresentá-lo ao Birô de Cinema que seleciona os projetos para financiamento. Todas as mudanças que ocorreram nos últimos anos finalmente permitiram que eu fizesse isso. ´Sonhos´ foi aprovado em relativamente pouco tempo " O mundo vai mudar, pressente o pai de Sonhos com Xangai. O mundo está mudando rapidamente na China que se (re)converteu ao capitalismo, assinala Wang Xiaoshuai, falando sobre o que ocorre em seu país. "Passei toda a minha juventude numa região rural. Tenho sentimentos muito fortes em relação aos lugares nos quais cresci. Todas as pessoas que viviam na região, como meus pais, eram originárias de Xangai. Queria que o filme tivesse a marca do verdadeiro. Foram tantas dificuldades, tantas esperanças. Não poderia fazer nada que não honrasse aquela experiência humana." Na classificação da crítica, Wang Xiaoshuai pertence à sexta geração do cinema chinês, que se seguiu à quinta, cujo representante mais famoso, internacionalmente, é Zhang Yimou. O diretor não dá muita importância a essas classificações. "Isso de quinta, de sexta geração é uma invenção da mídia. Não existe oposição nenhuma entre a minha geração e a que nos precedeu. Acho que há uma continuidade. Queremos deixar uma obra tão importante quanto aqueles que nos precederam, um testemunho igualmente forte, tanto do ponto de vista ético quanto estético " Ele reagiu à etiqueta que lhe foi pregada - a de que seria o representante da sexta geração. "Sou apenas um diretor que tenta desenvolver sua obra. Estou feliz com meu trabalho, neste momento, mas não quero ser transformado em símbolo de coisa nenhuma. Embora meus filmes nunca tenham sido lançados na China (NR - Sonhos com Xangai foi a primeiro, posteriormente), sempre tive uma ligação muito agradável com o cinema. Faço filmes para conversar com as pessoas, como se estivesse me dirigindo a um amigo. Gosto de comparar meus filmes a uma esposa - por que buscar a ruptura, se vai indo tudo tão bem entre a gente?" Sonhos com Xangai é um filme pesado. A região rural parece parada no tempo, mas sob a superfície estagnada há um mundo em explosão, cheio de competitividade e rivalidade. Para dar seu testemunho sobre o país, Wang Xiaoshuai não dá refresco ao espectador, mas seu sonho, como ele diz, é mudar o tom e fazer uma comédia. O mais curioso é que há uma continuidade, como diz o diretor, entre os autores que estão construindo o novo cinema da China. Em Berlim, este ano, o Urso de Ouro foi para O Casamento de Tuya, de Wang Quan?an, sobre pastores da Mongólia chinesa que, agora, são incentivados a abandonar suas terras e buscar as cidades, para participar do esforço de industrialização. O próprio Wang Xiaoshuai, com seu filme anterior, já havia sido premiado em Berlim (com o Urso de Prata). Bicicletas de Pequim mostra aquele jovem do interior que precisa de sua bicicleta para trabalhar nessa nova China, mas ela é roubada. Mais que uma ponte com o clássico neo-realista Ladrão de Bicicletas, de Vittorio De Sica, a ponte que Wang Xiaoshuai quer estabelecer é com a realidade do seu país. As contradições da nova China têm nele um crítico denso. Após décadas de homogeneização social, os novos chineses querem afirmar seu individualismo, mas pagam alto preço - a competição é dura e poucos alcançam seus objetivos. Sonhos com Xangai (Shangai Dreams, China/2005, 123 min.) - Drama. Dir. Wang Xiaoshuai. 12 anos. Cotação: Bom

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