The New York Times
The New York Times

Isabelle Huppert e o poder transformador dos sapatos

'O figurino é o primeiro passo para a personagem, a porta de entrada para a personagem. E os sapatos são muito, muito importantes, porque definem a maneira como você se move', revela a atriz

Jessica Testa, The New York Times

06 de outubro de 2020 | 10h00

Para viver uma mulher que adora gatos e é meio desequilibrada, Isabelle Huppert usa mules pontiagudos na cor mostarda. Para encarnar uma diva que corteja a juventude eterna, ela usa pumps roxos, adornados de cristais. Quando o negócio é construir personagens, estes são detalhes importantes, mesmo que a personagem apareça apenas uma vez, numa cena de um minuto.



Seis dessas cenas compõem o vídeo de apresentação da coleção primavera 2021 da Roger Vivier, que vai ser lançada na quinta-feira. Nesta temporada, Gherardo Felloni, o diretor criativo da casa, não conseguiu criar o tipo de fantasia esquisita que fez em Paris no mês de fevereiro. Então ele inventou um filme interativo.

É um game de escolha-sua-própria-aventura, com Huppert no papel de uma inescrupulosa mestre de cerimônias. No final de cada cena, ela apresenta uma escolha aos espectadores: se eles fazem a escolha certa, passam para a próxima cena. Cada um dos cenários homenageia filmes de gênero como Batman: O Retorno e A Morte lhe Cai Bem. (Se a escolha for incorreta, a cena volta para o início).

Para Huppert, o projeto parecia uma versão criativa de propaganda de calçados. Mas também reforçava o poder do figurino. Durante as filmagens, por exemplo, ela ganhou um vestido que já havia usado antes, em A Dama das Camélias, filme rodado há quase quarenta anos. Recém-retirado do depósito, o traje trouxe muitas memórias - não de 1981, mas de encarnar aquela personagem.

Durante um telefonema de Paris na semana passada, Huppert, 67 anos, disse que “os figurinos são essenciais”. Na conversa editada abaixo, ela falou sobre a conexão entre suas roupas e seu ofício.



 

Como o figurino ajuda você a entrar na personagem?


De fato, o figurino é o primeiro passo para a personagem, a porta de entrada para a personagem. E os sapatos são muito, muito importantes, porque definem a maneira como você se move. Quando eu estava fazendo aquela mulher amarga dos gatos, você podia ver minha postura mesmo quando eu estava sentada, só pelos sapatos, pela maneira como eu ficava com as pernas uma perto da outra.

Uma amiga - quando alguém lhe perguntava: “Como você encontra seus papéis?” - costumava dizer: “nos meus sapatos”. Eu acho que é uma grande verdade. Você pode andar de salto alto, de rasteirinha, de tênis, mas é sempre aqui que a personagem começa. Nos calçados.


 

Os sapatos são importantes para o seu estilo pessoal?


Sim, adoro sapatos. Um belo sapato, especialmente de salto alto, dá uma bela postura. De uma hora para outra, você fica muito graciosa - ou muito poderosa.

Quando você usa um par de sapatos como parte de um figurino, não é fácil voltar a usá-lo em outro contexto, porque ele fica muito ligado ao papel. Então, guardo mais como lembrança do que qualquer outra coisa.


 

Durante o lockdown, você mandou os sapatos de salto alto para o fundo do armário?


Claro. Você não fica andando de salto alto dentro de casa - ficava mais descalça, quase o tempo todo.

Durante o confinamento, você deixa de arrumar o cabelo, de escolher sapatos, muitas vezes até de se vestir. Mas tentei me arrumar algumas vezes, só para não perder o ritmo.


 

Então você não estava como o resto dos mortais, vivendo de moletom e leggings?


Bom, leggings também são roupas, em certo sentido. Mas eu me arrumava, sim, absolutamente. Acho que, se não me arrumasse, teria sido muito deprimente. Afinal, por que não ficar na cama o dia inteiro?


 

Por que você disse sim a este projeto?


A casa Vivier tem uma história antiga, mas também tem senso de humor. Há algo de espirituoso nos sapatos, na maioria das vezes, seja pela cor ou por algum detalhe.

Também acho que o novo estilista é muito talentoso. O roteiro era muito criativo e, como atriz, tive um certo prazer em interpretar todas as personagens. Foi fácil para mim, mais do que se estivesse atuando sozinha.


 

Por que foi fácil?


Acho que por causa dos diferentes figurinos e cabelos. O exterior influencia o interior. Faz você se mover de maneira diferente, faz você se comportar de maneira diferente e faz de você uma outra pessoa. Simples assim.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENZTZOUI

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.