Isabelle Huppert, a dama francesa no cinema e no teatro

Atriz está no Brasil, em mostra de filmes, exposição de fotos e papel na peça 'Quartett', dirigida por Bob Wilson

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

16 de setembro de 2009 | 09h00

Atriz francesa Isabelle Huppert posa ao lado da mostra de fotos sobre ela. Foto: Keiny Andrade/AE

 

SÃO PAULO - Ela é difícil, temperamental. É o rumor que cerca Isabelle Huppert e que marcou, inclusive, o distanciamento da imprensa em relação ao seu papel como presidente do júri no Festival de Cannes, em maio. Mademoiselle Huppert não se entrega, mantém a distância. Ela admite que sim. "Gosto de chamar a atenção, de ser fotografada. Vivo da minha imagem e tudo isso é importante, mas é preciso fixar limites. Tem gente que faz questão de expor sua privacidade, eu protejo a minha."

 

Mademoiselle Huppert chegou por volta de 19h15 ao CineSesc, na segunda-feira à noite. Às 20 horas, deveria apresentar a sessão de Villa Amália, seu quinto filme com Benoit Jacquot, um dos autores aos quais é fiel, como Claude Chabrol, Michael Haneke e Bob Wilson, diretor da peça Quartett, da qual faz nesta quarta, 16, a última apresentação no Sesc Pinheiros. Quartett será montada também no Porto Alegre em Cena (dia 23) e em novembro irá para Nova York. Rapidamente, Isabelle subiu ao andar superior da sala na Rua Augusta e ali, durante cerca de meia hora, conversou com o repórter do Estado. No restante do tempo, foi amável com as pessoas que disputavam sua atenção, deixou-se fotografar. Estava de excelente humor.

 

Tailleur preto básico, pouca - quase nenhuma - maquiagem, Isabelle Huppert é a própria imagem da discrição. Ela não se preocupa em disfarçar rugas, olha nos olhos do interlocutor. De chamativo, só o detalhe do sapato vermelho - uma Melissa, que comprou à tarde, numa loja dos Jardins.

 

Entrevistei hoje pelo telefone Brillante Mendoza, a quem você outorgou o prêmio de direção, por Kinatay, e ele me disse que não teve tempo de lhe agradecer. Soube que você foi uma grande batalhadora pelo filme dele e me pediu que lhe transmitisse seu abraço.

 

Que simpático! Na verdade não precisei fazer tanto esforço assim. Havia um sentimento muito forte do júri pelo filme de Brillante. Aliás, ao contrário do que a imprensa disse depois, nossas deliberações foram todas muito pacíficas. Quando não havia unanimidade, havia diálogo, o que é mais importante.

 

Surgiram histórias de que você teria manipulado para outorgar a Palma de Ouro a seu favorito, Haneke. A internet ficou cheia das reclamações de um dos jurados, o diretor americano James Gray, reclamando de seu autoritarismo.

 

Mais c’est ridicule! James e eu não saímos inimigos dessa experiência. Nossa relação foi sempre muito boa. Li com surpresa todas essas histórias que circularam depois. Foram criações da imprensa. Mas, atenção, não estou generalizando. Assim como existem bons e maus artistas, existem bons e maus jornalistas.

 

Você apresenta daqui a pouco seu novo filme com Benoit Jacquot. Se há uma coisa que se pode destacar é sua fidelidade a determinados autores. Por afinidade, você os escolhe?

 

Digamos que eles também me escolhem. Não é só a vontade de trabalhar com gente conhecida, com quem me sinto bem. Eles me conhecem, eu os conheço, sabemos até onde podemos ir e o desafio é sempre ir mais longe. Benoit, por exemplo. É meu quinto filme com ele.

 

É um diretor francês menos conhecido no Brasil. Não seguimos sua obra com regularidade.

Benoit é menos conhecido na própria França, o que não significa que não seja apreciado. Mas é um autor que desconcerta. Seu cinema é 100% autoral e desde logo ele se afirmou como um cineasta dos mais exigentes, rompendo com a estética da nouvelle vague para se reaproximar de (Robert) Bresson.

 

Sua parceria mais constante é com Claude Chabrol, que tem fama de preguiçoso, mas é um dos cineastas mais ativos do cinema francês.

 

Claude é um falso preguiçoso. Usa uma máscara e não se importa de estimular esse tipo de comentário que não corresponde à realidade. Não estou dizendo nenhuma novidade ao ressaltar que seu olhar sobre a burguesia francesa de província tem algo da tradição de Balzac ou Flaubert, de quem fizemos uma versão de Madame Bovary. Claude é virulento, revela seu ódio da burguesia e possui uma fome muito rica. Come-se muito nos seus filmes, mas esse comer é também metafórico. O curioso é que se pode dizer dele que é um conservador, mas não no sentido da complexidade moral de sua obra, que é muito moderna. para mim, Claude é, acima de tudo, um humanista.

 

Está aí uma definição que as pessoas hesitariam em aplicar a Michael Haneke, dada a crueldade que manifesta em muitos filmes.

 

Mas Haneke é um humanista e, mesmo quando filma a violência, o que ele está querendo fazer é nos confrontar com suas origens e nossas convicções, como ocorre em Le Riban Blanc.

 

Confesse, é verdade que você manipulou para dar a Palma a este filme?

 

As pessoas fantasiam muito e há uma certa imprensa, não toda, que busca o escândalo a qualquer preço. Talvez seja vendável dizer que manipulei o júri para premiar Haneke, mas nosso júri era formado por pessoas inteligentes, adultas. Ninguém tinha ideias preconcebidas e pudemos conversar e negociar sobre a melhor premiação.

 

Nos últimos anos, Cannes tem sido a vitrine das novas tecnologias. O que você pensa delas, e o que o seu júri pensava?

 

Há quase dez anos, Gilles Jacob (diretor do festival) organizou um colóquio para discutir as novas tecnologias e, desde então, o assunto tem estado em pauta. Para ser completamente honesta, devo dizer que nunca fiz - é, acho que nunca fiz - um filme em HD, mas isso não representa um parti-pris. Na verdade, essa foi uma discussão que não houve. Nunca levamos em consideração se o suporte era película ou digital, se deveríamos premiar por isso ou por aquilo. Também não havia a intenção deliberada de premiar um filme por seu conteúdo político. As questões éticas, existenciais não são menos importantes.

 

Você já foi redatora chefe de publicações como 'Cahiers du Cinéma', em edições bem importantes, e presidiu o júri do maior festival do mundo. Ou seja, é alguém que também pensa, e não apenas faz, cinema. Nunca pensou em dirigir?

 

Se for pensar como possibilidade ou, mesmo, necessidade de expressão, não. Mas se for pela curiosidade, aí sim. Sou muito curiosa em relação a tudo. Mas, justamente porque me preservo, as pessoas não esperam me ver fora das atividades habituais e, por isso, cria-se um rumor, até uma animosidade, quando estou num júri como o de Cannes. Viro a estranha e isso estimula todo tipo de comentário e fantasia.

 

O que você aprendeu ou descobriu nessa sua experiência como presidente do júri em Cannes?

 

Não diria que foi uma descoberta, mas uma constatação. Muitos filmes da seleção abordavam a violência do mundo. O de Brillante (Mendoza), por exemplo. O de (Michael) Haneke. Um expõe de forma provocativa, abre uma janela terrível. O outro tenta nos fazer compreender. Foi uma experiência muito rica, pelas discussões que suscitou.

 

Quase não falamos de teatro. Em janeiro do ano passado, a vi no palco, em Paris, representando a peça 'Le Dieu du Carnage', dirigida pela própria autora, Yasmina Reza. Como foi para você?

 

Era um texto muito rico e a mise-en-scène de Yasmina, que era sua autora, privilegiava justamente as palavras. Não havia grande rebuscamento cênico. A peça era boa, tudo era muito simples e direto. O público correspondeu e Le Dieux du Carnage foi um grande sucesso. É bom quando isso ocorre, poder falar com o público sem estar fazendo concessões, que é justamente o que costuma ocorrer com os autores que prefiro, seja no cinema ou teatro.

 

Ainda não falamos sobre 'Quartett'. Ouço falar sobre o genial iluminador, o artista cheio de referências pictóricas. Como é trabalhar com Bob Wilson?

 

É meu segundo trabalho com ele. Bob Wilson é um artista que pensou não apenas o teatro, mas a arte em geral. Outros fizeram isso, claro. Ele o fez à sua maneira. O genial é que, pela via da forma, Wilson chega à descoberta e ao respeito quase sagrado pelo texto.

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