Irmãos Dardennes dão aula de compaixão em Cannes

Por mais audaciosa que seja aexperiência formal de Arca Russa, o filme de AlexanderSokurov, narrado em um só plano contínuo de 90 minutos, é umaimpostura, comparado à intensidade da experiência proposta pelosirmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne em Le Fils (O Filho).Há três anos, eles receberam a Palma de Ouro por um filme nuncalançado no Brasil, Rosetta. Na coletiva desta semana, aocomentar a sensação de ter sido presidente do júri em 1999 (oano de Rosetta) e agora voltar à competição, DavidCronenberg revelou que a pressão sobre os jurados é insuportável, mas acrescentou que o filme dos Dardennes, naquele ano, foieleito por unanimidade. "Nunca tivemos dúvida da nossaescolha", disse ele. A questão é: o júri agora presidido porDavid Lynch terá dúvidas ou pode-se esperar por outra Palma paraos irmãos belgas?O Filho começa com a câmera colada ao protagonista,um homem que trabalha numa marcenaria, ensinando a profissão aalguns jovens. A câmera o apanha quase sempre de costas, emplanos muito próximos, como se os Dardennes quisessem atravessaresse homem, indo além daquilo que um olhar superficial poderevelar. Esse homem tem sua atenção dirigida, obsessivamente,para um garoto que aceita como aprendiz. O espectador não sabe oporquê desse interesse. Não sabe no início, mas logo descobre,num diálogo do protagonista com a ex-mulher, que veio lhecomunicar que está grávida. Eles tiveram um filho, o garoto foiassassinado e esse adolescente que freqüenta o ateliê doex-marido, cuja especialidade é justamente recuperar jovensdelinqüentes, oferecendo-lhes uma profissão, é ninguém menos doque o assassino.Paixão e compaixão. Foi Cronenberg quem falou disso aquiem Cannes, a propósito de seu filme Spider, que mergulha namente de um psicopata. A definição aplica-se mais ainda ao filmedos Dardennes. Como os pais de Entre Quatro Paredes, o deO Filho poderia aproximar-se do assassino de sua cria movidopelo desejo de vingança. E talvez seja mesmo esse o movimentoinicial que aproxima os dois. Só que as coisas não são tãosimples, o desejo de vingança revela-se, afinal de contas,relativo.Paixão e compaixão. Talvez Van Gogh tivesse razão,afinal de contas. Não existe grande arte sem compaixão. Numacarta ao irmão Theo, ele escreveu que queria fazer pinturas paraconsolar as pessoas da dor de viver. O sueco Ingmar Bergmantambém já definiu, certa vez, a vida como uma dor de dentes naalma. Os Dardennes também acreditam nessa dor e também queremconsolar. Você pode ter chorado em O Quarto do Filho, deNanni Moretti. Talvez fique agora com um nó na garganta aestrangulá-lo. Os diretores criam um filme que parece gélido,seguram o quanto podem a emoção e, de repente, a soltam. Com osDardennes e alguns poucos grandes diretores, o cinema revela-seum poderoso instrumento de investigação das complexidadesabissais da alma humana.Ainda não dá para saber qual a acolhida da crítica paraO Filho, embora o filme tenha sido muito aplaudido no finalda sessão para a imprensa. Hoje, nos quadros de cotações dofestival, O Homem sem Passado, de Aki Kaurismaki, passou àfrente de All or Nothing, de Mike Leigh, como o filme mais"palmarizável" de Cannes 2002. O quadro de cotações substitui,justamente, as tradicionais estrelas por Palmas de Ouro. OHomem sem Passado era hoje o campeão dessas palminhas. Se oscríticos e jornalistas tiverem a cabeça no lugar, hoje deveráser superado por O Filho.Escandaloso - Ainda sob impacto do deslumbrante trabalhodos irmãos Dardenne, que vieram do documentário e passaram paraa ficção sem desistir do cinema engajado, os críticos foram verontem à noite o filme que, desde o começo deste festival, vemsendo anunciado como o grande escândalo de Cannes 2002.A crônica desse escândalo anunciado põe o holofote sobreo filme francês Irréversible, de Gaspar Noë, interpretadopelo casal Monica Bellucci e Vincent Cassel. Monica é aqueladeusa que fez Malena com Giuseppe Tornatore. Cassel, de OÓdio, ama o Brasil, adorando praticar esportes nas praias dosul da Bahia. E o filme anuncia-se como escandaloso por causados nove minutos que dura a cena na qual a personagem de Monicaé estuprada. O próprio presidente do Festival de Cannes, GillesJacob, contribuiu para a expectativa, ao dizer que nunca sofreuexperiência parecida. Teve de desviar os olhos da tela. E setudo isso for só marketing? Sábado, a resposta.

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