Irmãos Coen revisitam o universo noir em novo filme

Havia elementos de cinema noir em Gosto de Sangue e Ajuste Final. O primeiro longa dosirmãos Coen (produzido por Ethan, dirigido por Joel e escritopor ambos) era um suspense hiperbólico sobre um assassino quetenta se livrar de sua vítima sem saber que ela ainda está viva.O filme conseguia ser enervante sem deixar de ser engraçado.Ajuste Final é um thriller labiríntico que desafia qualquertentativa de compreensão da trama. Você a apreende no geral echega. O noir estava lá, em um como no outro. Mas não eramautênticos exemplares de cinema noir. O Homem Que não Estavalá, novo filme da dupla, possui todos os arquétipos e códigosdo gênero, mas também não é um noir legítimo. É o noir queBarton Fink escreveria, se não fosse só uma criação ficcionaldos famosos irmãos (em Delírios de Hollywood).O Homem Que não Estava lá integrou a mostracompetitiva do Festival de Cannes do ano passado. Não recebeuprêmio nenhum. Merecia no mínimo o Prêmio Superior da ComissãoTécnica de Cinema para a sua fotografia, um deslumbrantetrabalho em preto-e-branco (que dá a impressão de ter sidorodado em cores antes de ser passado para PB, um processo quepode ser raro mas não é inédito). As imagens são primorosas, osatores são perfeitos. Billy Bob Thornton faz o protagonista. Ébarbeiro, descobre a infidelidade da mulher e comete umassassinato, numa trama que envolve chantagem. A mulher (FrancesMcDormand, casada com Joel Coen na vida) é acusada, vai ajulgamento. Há tantas reviravoltas na história que, acredite,não tira a graça saber o que foi contado até aqui.Os Coens consagraram-se no time dos cineastasindependentes surgidos em Hollywood nos anos 80 e 90. Possuemsólida formação clássica. Barton Fink - Delírios deHollywood situa-se nos limites de Fausto, sem deixar deser kafkiano como expressão do absurdo que ronda a atividade deum roteirista de cinema nos anos 40. E aí Meu Irmão, CadêVocê?, com o qual os Coens concorreram em Cannes em 2000 (etambém não ganharam nada), bebe muito livremente na fonte deHomero e é uma variação do tema da Odisséia. O HomemQue não Estava lá reincide em Kafka. A situação do herói éabsurda, a do espectador também. Trata-se de um desses rarosfilmes que não se esgotam a uma primeira visão. Você pode ver (erever) e vai sempre descobrir coisas novas, porque Ethan e Joel(como roteiristas) e Joel (como diretor) dispõem de um arsenalnão de truques, mas de enigmas que tornam a narrativa complexa.Há muitas cenas de espelhos em O Homem Que não Estavalá. Expressam um tema caro ao cinema noir, que não precisa sódo clima sombrio para realizar-se como expressão do gênero (queespecialistas como A.C. Gomes de Matos preferem definir comoestilo de cinema). Não há noir sem homens enganados por mulheresfatais nem homens e mulheres enganados pelas aparências. Essejogo de aparências é constantemente subvertido em O Homem Quenão Estava lá. A narrativa toma rumos inesperados, muda o tome o ponto de vista para voltar no fim ao ponto de vista donarrador que marcha para...Veja O Homem Que não Estava lá para saber do que setrata. Quem viu Ajuste Final com certeza se lembra de quenão havia, naquele filme, um só personagem de boa índole. Todosusavam os golpes mais baixos para defender seus interesses. Ospersonagens deste filme também são assim, com exceção de Frances acusada pelo crime que não cometeu. A garota que toca a sonatade Beethoven, que Thornton imagina que será sua salvação, osurpreende com um gesto totalmente inesperado, que marca aúltima virada da narrativa. O mundo, segundo os Coens, ébasicamente corrupto e essa é outra característica do universonoir, cujas regras O Homem Que não Estava lá segue apenaspara exercitar o prazer de subvertê-las. O filme não é, comoBarton Fink, um hui clos nascido de um delírio paranóico.Mas não deixa de ser o hui clos que poderia ter nascido da menteparanóica de Barton Fink. É o filme mais intrigante (o melhor)dos irmãos Coen desde Fargo. Mas vá preparado: paradesfrutar a diversão que "O Homem Que não Estava lá" oferece,você precisará fazer o que a produção corrente de Hollywood nãotem por hábito exigir do espectador. Terá de pensar.O Homem Que não Estava lá (The Man Who Wasn´t there).Drama. Direção de Joel Coen. Duração: 112 minutos. 14 anos.

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