Irmãos Coen lançam filme com desfile de famosos em Veneza

'Burn After Reading', que traz Pitt e Clooney no elenco, é comédia de humor negro sobre ex-agente da CIA

Luiz Zanin Oricchio, enviado especial do Estado,

08 Agosto 2027 | 17h35

E não é que as primeiras cenas do Festival de Veneza mostram o mais conhecido cartão postal de São Paulo - a própria Avenida Paulista? Elas estão na abertura e no fechamento do curta-metragem de Manoel de Oliveira Do Visível ao Invisível, que tem o diretor da Mostra de São Paulo, Leon Cakoff, como um dos protagonistas. O outro é o português Ricardo Trepa. Com bom humor e ironia, Leon e Ricardo se encontram em pleno burburinho da Paulista e tentam conversar, mas são a toda hora interrompidos por seus celulares. Manoel, na jovialidade dos seus 100 anos completados em julho, enfrenta assim, sem angústia aparente, esse antigo tema da incomunicabilidade humana, agravado pelas novas tecnologias que, ironicamente, se dizem voltadas à comunicação.   Veja também: Galeria com imagen do primeiro dia do Festival de Veneza    Pitt e Clooney, de Burn After Reading, no tapete vermelho de Veneza. Foto: AP   Do Visível ao Invisível precedeu a estréia mundial do novo longa-metragem dos irmãos Coen, Burn After Reading, alguma coisa como Queime depois de Ler, que passa em Veneza fora de concurso. Os Coen desembarcaram no Lido com a trupe toda e, levando-se em conta os nomes do elenco, pode-se imaginar o tititi causado: George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand e Tilda Swinton. Só faltou John Malkovich na turma.   Como costuma acontecer quando celebridades de Hollywood estão envolvidas, a coletiva de imprensa virou circo. Elenco e diretores já chegam com a disposição de não se levarem a sério, desencorajando qualquer pergunta mais profunda, e descartando qualquer tentativa nesse sentido com gracinhas e ironias. Não vieram mesmo para discutir o filme. E assim encorajam o que de qualquer forma iria acontecer - cenas explícitas do que, pudicamente, poderíamos chamar de jornalismo-espetáculo ou reportagem-piada. Não faltaram perguntas a Pitt sobre a saúde dos gêmeos que teve com Angelina Jolie. Uma repórter de TV espanhola veio vestida de maneira, digamos, esportiva, como se fosse praticar jogging em pleno Cassino do Lido. Aproveitou-se de que na história o personagem de Clooney gosta de manter a forma dessa maneira e perguntou ao ator se ele gostaria de correr atrás dela. Clooney respondeu, na bucha: "Eu correria de você, e não atrás de você." Houve contribuições semelhantes por parte de outros "profissionais" da imprensa, mas é melhor deixar para lá.   E quanto ao filme? Bem, Burn After Reading parece um divertimento após o que parece ter sido o extenuante Onde os Fracos Não Têm Vez, baseado no dark Cormac McCarthy. Acontece que, com os Coen, há sempre alguma coisa a mais que vem abaixo da superfície. Muito mais, falando nisso. Em aparência, o filme é uma comédia de humor negro, uma comédia de equívocos em que uma trapalhada leva a outra e assim sucessivamente, até chegar a conseqüências trágicas. Bem visto e pesado, é um comentário tanto ácido quanto irônico da contemporaneidade norte-americana, e sua relação com a herança da Guerra Fria. Na parte aproveitável da entrevista, os Coen desmentiram qualquer implicação política da história, mas é óbvio, para quem consegue ver, que ela comenta algo do tipo: "O que vamos fazer com o nosso passado?" Nas vésperas de uma eleição decisiva, é, de fato, a pergunta a ser feita.   Na história, Malkovich é Osborne Cox, agente da CIA demitido por alcoolismo crônico. Clooney é um agente federal e Pitt, um personal trainer que trabalha em uma academia. Frances McDormand é gerente dessa academia, e Tilda Swinton, a esposa do ex-agente da CIA. Meio por rancor, meio por tédio, Cox resolve escrever suas memórias e grava o texto em um CD. Sua mulher, que o está traindo, rouba o CD e o esquece na academia. A personagem de McDormand precisa de dinheiro para pagar uma série de cirurgias plásticas que acredita necessitar para sua carreira e assim a coisa vai. As histórias se cruzam, mas não da maneira que se tornou habitual. Há sutilezas no modo como os Coen costuram seus comentários sobre temas como a obsolescência de uma agência de inteligência, a obsessão moderna pelo culto físico, o sexo pela internet e outras delicadezas da vida contemporânea. O filme é brilhante, e realizado com a habitual fluidez. Passa num respiro. Dá vontade de ver de novo.   Para algumas dezenas de privilegiados, o festival começou na véspera, com a exibição em praça pública de A Lenda do Santo Beberrão, de Ermano Olmi, filme que venceu o Leão de Ouro há exatos 20 anos. A projeção se deu no Campo de San Polo, onde foi montado telão para receber as imagens da cópia restaurada pelo Centro Sperimentale di Roma, a Cinemateca italiana onde tantos brasileiros estudaram nos tempos do Cinema Novo, como Paulo César Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade.   Antes da sessão, houve coquetel e jantar num dos magníficos palácios venezianos situados no Canal Grande - o Palazzo Quirini Dubois. O Estado esteve presente e testemunhou a conversa de Ermano Olmi com Manoel de Oliveira. Aliás, serviu de intérprete entre os dois. Oliveira, entre outras coisas, se queixou de que o espectador não mais enfrenta os desafios de inteligência que o bom cinema propõe. E está voltando no tempo. Ao que Olmi respondeu que seria bom se assim fosse, pois, voltando na história talvez regressasse à civilização grega, ao Partenon e outras maravilhas, e não é isso que se anuncia. O que se vê é um avanço contínuo, e em direção à barbárie. "Tanto assim que as multinacionais estão comprando terras por todo o planeta, tentando estocar riquezas para usufruir mais adiante", disse.   Olmi acha que os desafios do presente são tão grandes que não deseja mais filmar ficção, mas apenas documentários. "Quero voltar às coisas mesmas, hoje tão sobrecarregadas de significações que não mais as vemos". É claro que este é um ideal de pureza por parte de um cineasta profundamente impregnado da doutrina cristã. Não talvez de um cristianismo doutrinário, mas rigorosamente ético. Por isso o desalento com o mundo atual, com a celebração da falência ética e da moral dos espertos. De certa forma, o filme que foi visto no Campo de San Polo já aponta para esse tipo de preocupação. Rutger Hauer faz o mendigo alcoólatra que contrai uma dívida impagável com Santa Tereza. Ele precisa doar 200 francos à igreja, mas algo sempre o desvia num momento ou no outro - um amigo de juventude, uma mulher tentadora, etc. Não deixa de ser também uma parábola sobre o pecado original e a falha trágica do homem, sempre dividido entre seu desejo e a vontade. São imagens marcantes deste filme, agora restituído em cópia impecável. Vê-lo, tendo ao lado a arquitetura veneziana e acima um céu estrelado, é experiência que não se esquece.

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