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Irmãos Coen fazem homenagem ao folk

Cineastas faz bela reverência ao gênero nos anos 1960 em longa que abre a Mostra de são Paulo

Pedro Caiado / Londres, Especial para O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2013 | 22h41

Inside Llewyn Davis – A Balada de um Homem Comum, o novo filme dos irmãos Coen, tem provocado sensação por onde passa. O longa, que é uma homenagem à musica folk dos anos 60 e seu principal expoente, o artista Dave Van Ronk, ganhou o segundo prêmio mais prestigioso do Festival de Cannes, o Grand Prix, e virou aposta para concorrer à vaga de melhor longa no próximo Oscar.

Também abre na quinta, para convidados, a 37.ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A festa dos cinéfilos vai reunir 379 longas – só nacionais, serão 80. Como sempre, o evento vai se espalhar pela cidade, ocupando 28 locais de exibição. Opções para todos os gostos não faltarão, pois a Mostra vai trazer competição de novos diretores, perspectivas do cinema mundial, apresentações especiais, retrospectivas e Mostra Brasil.

Inside Llewyn Davis é o 16.º filme da consistente carreira do dueto Joel e Ethan Coen – os mesmos de O Grande Lebowski, Onde os Fracos não Têm Vez e Matadores de Velhinha.

A produção mostra o cenário folk dos arredores do bairro Greenwich Village de Nova York, nos anos 60, através dos olhos de Llweyn Davis (vivido por Oscar Isaac), um cantor e compositor egoísta, teimoso e sem sorte. O personagem é tão convencido de seu talento que não aceita um não como resposta. A mensagem do filme é a de que não importa o talento, é preciso ter sorte acima de tudo. Justin Timberlake vive um dos músicos no filme, que traz também performances de Carey Mulligan e John Goodman.

Irmãos Coen falam sobre Inside Llewyn Davis

A influência da música de Bob Dylan na infância o clima do Greenwich Village de Nova York nos anos 60 são dois dos motivos que Joel e Ethan Coen citam como inspirações para fazer Inside Llewyn Davis.

“Como muitos, nós dois ouvimos a música de Bob Dylan quando éramos crianças. Nós éramos muito pequenos para ter ouvido a música daquele período, mas lembramos muito de Dylan e a música folk que veio antes dele, como Pete Seeger e Big Bill Broonzy”, disse Ethan ao Estado em Londres, acrescentando que tinha real interesse na história do músico Dave Van Ronk, principal expoente do folk dos anos 60. “Ele foi o começo de tudo. A ambição era que esse filme tivesse música daquele período. Mas os personagens são essencialmente inventados. Oscar Isaac toca muito do que Dave tocava. Pegamos outras influências de Van Ronk também – o fato de que ele era uma criança de classe trabalhadora dos subúrbios que se mudou para o Village”, completa Joel.

Inside Llewyn Davis faz um retrato do gênero no bairro nova-iorquino pelos olhos de Llewyn Davis (Oscar Isaac), um cantor e compositor que não aceita um não como resposta.

Joel menciona o livro escrito por Van Ronk, The Mayor of MacDougal Street, que define como uma interessante descrição daquele renascimento do folk, anterior à cena de Bob Dylan no Village, e que ele chamou de ‘o melhor susto folk’ em meados dos anos 50 e começo dos 60. “Mas muitos aspectos do personagem nós criamos, como as roupas, que não têm conexão alguma com as de Van Ronk”, defendeu o diretor de 58 anos. “Queríamos contar a história de um personagem que era muito talentoso no que fazia, mas que não era bem-sucedido”, disse Joel. “A ambição do filme era trazer essa pergunta – Por quê? Se ele fosse ruim e malsucedido, não daria um filme com certeza”, disse. “Ele tinha de ser bom no que ele fazia”, explica Joel.

Sobre o gato, presença constante no filme, Ethan afirmou: “Nós percebemos, no início, que esse era um personagem que não estava indo para lugar nenhum, e não tinha nada de interessante acontecendo com ele, então pensamos em colocar um gato ali", disse o americano com ironia. “Foi bem difícil trabalhar com um gato. Eram vários, na realidade, e cada um tinha uma personalidade diferente. Foi um desafio”, complementou o ator Oscar Isaac.

A excelente trilha sonora de Inside Llewyn Davis foi produzida por T-Bone Burnett, produtor musical que trabalhou com os irmãos Coen pela primeira vez em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (com George Clooney). T-Bone foi guitarrista de Bob Dylan originalmente. O álbum traz um mix de clássicos do folk e músicas originais, em que Justin Timberlake e Marcus Mumford (do grupo Mumford and Sons) colaboram. “Esse é o quarto filme que fazemos com o T-Bone. Ele esteve muito envolvido com o filme desde o início. Nós mandamos o roteiro no início, pois algumas das canções estavam em papel. Algumas que fizemos ele sugeriu, e outras foram resultado de uma colaboração entre nós. Neste filme, também tivemos uma semana de pré-gravações antes do início das filmagens. Mesmo tendo música ao vivo no set, T-Bone reunia um grupo de músicos para produzir toda a instrumentação anteriormente. Ele trabalha com outros músicos também, como o Marcus Mumford que é um coprodutor do T-Bone”, disse Joel.

Perguntado sobre o motivo do hiato de três anos entre seu último filme, Bravura Indômita, e este, Joel brincou: “Eu tenho um filho adolescente”. “Na verdade, nós filmamos este há algum tempo. Já estava pronto, mas, por motivos de marketing e distribuição, resolvemos lançar agora”, disse, acrescentando ser difícil lançar um filme por ano. “Filmar, editar e lançar... É muito difícil fazer nesse passo”, disse.

Sobre a consistência e o controle que tem de seus filmes em Hollywood, Joel explicou: “Somos sortudos. Desde o início, temos tido controle sobre nossos filmes. Nós tivemos de achar uma maneira de financiar nosso primeiro filme independentemente. Se alguém tivesse nos oferecido o dinheiro naquela época, mesmo com as desvantagens que viriam, nós provavelmente teríamos aceitado. Mas ninguém nos ofereceu”, explicou ele acrescentando: “Foi algo bom para a gente, na realidade”.

Oscar Isaac, ator guatemalense pouco conhecido, é a estrela e grande surpresa de Inside Llewyn Davis. As músicas são interpretadas pelo ator que também é músico. “Fiz um teste para esse papel e toquei para eles, mas, para ficar com o personagem, tornei-me obcecado pelo estilo do Van Ronk, que é bem particular. Faço música desde os 12 anos, mas nunca toquei esse gênero. E tive de aprender”, disse o americano de 33 anos. Perguntado se trabalhou na criação do seu personagem, o ator John Goodman disse: “Sou extremamente preguiçoso, e tudo já estava no roteiro. Eu sentava por algumas horas e memorizava os diálogos. Mas o corte de cabelo é meu mesmo”, afirmou, provocando gargalhadas.

Teria Inside Llewyn Davis cenas excluídas ou finais alternativos? Ethan Coen diverte-se: “Se tivesse um final diferente teria que ter uma abertura diferente, certo?”.

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