'Irmã Dulce' narra trajetória da beata indicada ao Nobel

Longa estrelado por Regina Braga estreia no próximo dia 27

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 09h41

Em São Paulo e Rio a estreia será somente no dia 27, mas nesta sexta-feira, 14, Irmã Dulce já entra no Norte/Nordeste, num circuito amplo que irá de Salvador a Manaus. Serão 108 salas. Era um desafio muito grande que o diretor Vicente Amorim e a produtora Iafa Britz enfrentaram com garra. Irmã Dulce teve sua pré-estreia oficial na capital baiana, na segunda-feira à noite. Na última quarta-feira, a equipe foi à estreia no Recife e nesta quinta será em Fortaleza. O desafio de Iafa Britz foi econômico, mas não só esse. Levantar a produção de um filme 'grande' nunca é fácil. Iafa não se vexa de dizer que, como a própria Irmã Dulce, saiu estendendo a mão. Ela fazia isso para por seus pobres. No filme, quando estende a mão, Irmã Dulce recebe uma cuspida. E diz - "Isso foi para mim." E estende a outra mão - "Agora, para os pobres."

Amorim também enfrentou seu desafio - imenso - e o dele foi não apenas contar sua história, mas como. Irmã Dulce foi uma mulher extraordinária. Você não precisa ser religioso para acreditar nisso. E, mesmo que ela venha a ser santificada. o filme não é sobre a 'santa'. Como diz Madre Fausta a Irmã Dulce, que quer remover montanhas, 'somos apenas mulheres'. Na ficção de Vicente Amorim, a pequena Maria Rita descobre a pobreza e perde a mãe. As duas coisas estão ligadas em seu imaginário para todo o sempre. Ela será a mãe de muitos, mas a vida inteira sonhará com aquela mãe.

Irma Dulce, o filme, evita a hagiografia. Conta a história de uma mulher que desafiou as convenções do seu tempo, e da instituição - a Igreja - à qual se consagrou. Mas Amorim teve um problema. Irmã Dulce teve atitudes, comprou brigas, venceu batalhas. Mas sua vida foi um,a linha dramática continua, sem sobressaltos. Seu conflito era com, o mundo, não consigo mesma. Como construir um arco dramático para o espectador? Por meio de personagens secundários. O filho, João, que representa todos os filhos. A Madre Fausta. Sobre que é seu filme? Vicente Amorim responde - "Sobre a ordem no caos."

Já era assim, em seu longa anterior, Corações Loucos. E talvez tenha sido por isso que Amorim enfrentou outro desafio recente - o de creiar as ligações para os episódios de Rio, Eu Te Amo. Face à desordem do mundo - a miséria, a violência -, Irmã Dulce responde com seu desejo (ético) de reorganização da sociedade e do mundo. Como ela diz, 'não vou virar as coisas de novo para aqueles que o mundo renegou.'

Vicente Amorim usa muito olhar para definir e interiorizar seus personagens. Creia grandes cenas emocionantes - atrás de João, que se perdeu na noite do crime, Irmã Dulce vai à mãe de santo. São duas grandes mulheres. Uma sabe da força da outra. Respeitam-se. É o momento 'Iafa Britz' do filme. A produtora de Irmã Dulce acredita no entendimento. É judia e já fez filmes sobre espiritismo (Nosso Lar) e agora uma figura icônica do catolicismo brasileiro.

A outra cena emblemática é o encontro com o papa. A hierarquia da Igreja tentou afastar Irmã Dulce, não conseguiu. Mas o encontro com João Paulo II é importante por outra coisa - porque é o reencontro de Irmã Dulce com João. Iafa, amorosa como é, quase estraga o próprio filme com o documentário final sobre Irmã Dulce (a verdadeira). Aquilo institucionaliza o que não é institucional - o filme que o precede. Mas até no documentário existem imagens contundentes. Irmã Dulce já estava muito mal quando teve um segundo encontro com o papa. Seu olhar para ele é agônico. O próprio pontífice, quando olha, parece antecipar sua futura agonia. Glória Pires tem uma breve e decisiva participação como a mãe. Bianca Comparato e Regina Braga estão além dos elogios. Criam uma única e impactante personagem. E ambas acreditam que Irmã Dulce, mais que nunca, é a personagem para se entender., e unir, o Brasil dividido das últimas eleições.

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