Iraque volta a fazer cinema, 11 anos depois

Com filme vencido encontrado no Ministério da Cultura de Saddam Hussein, após sua queda, iraquianos estão preparando seu primeiro longa-metragem desde 1992. As filmagens começaram em novembro, e a produção vai tratar da situação de Bagdá em tempos de ocupação.Odai Rasheed, de 30 anos, é o diretor do filme. Foi ele quem achou os rolos nos depósitos do ministério. Como tinha sua validade de exposição vencida, batizou o projeto de "Sob Exposição" (Gheir Saleh). Quer retratar a devastação da cidade nos dias que se seguiram à ocupação do país. O enredo conta a história de três jovens amigos: Hassan, um diretor de cinema; Moataz, um violoncelista que está morrendo de câncer; e Maysoun, uma estudante de arqueologia por quem os dois primeiros estão apaixonados.Tanto a equipe técnica como o elenco aceitaram trabalhar de graça no projeto. A experiência do grupo é pouca. O próprio diretor tem no currículo apenas uma tentativa frustrada de fazer documentário sobre a periferia de Bagdá. Ainda inconcluso, o material foi queimado por saqueadores.Apesar da pouca experiência, Rasheed exige comprometimento da equipe, formada basicamente por amigos. Diz que, no set, comporta-se como um experiente diretor "com 25 filmes no currículo". A seriedade também é fundamental para garantir a conclusão deste seu segundo projeto. Isto porque os rolos de filme são escassos e será necessário economizar.Os recursos de maquiagem e figurino são igualmente limitados. Para simular o ferimento de um soldado iraquiano, a produção teve de improvisar com lenços de papel, cola e pedaços de frango. Para economizar filme, o diretor recorre a cenas em que os personagens falam diretamente à câmera, sem a necessidade de planejar e orquestrar passagens mais grandiosas. Numa delas, o soldado iraquiano pergunta: "Por que fui ferido? Por que estou usando este uniforme?" Outro trecho dá a idéia dos ambivalentes sentimentos iraquianos, em tempos pós-Saddam: Moataz, agonizante, pergunta como está a cidade. "Horror, Bagdá não é mais Bagdá", responde Hassan. "Há dor em cada metro quadrado. A liberdade que a gente desejou por anos chegou, mas manchada de sangue e poeira."

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