Memento Films Production
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Iraniano Asghar Farhadi subverte suspense no filme 'Todos Já Sabem'

O trio Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín garante o brilho do longa, que fala de tragédia que expõe segredos e mentiras de uma família

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 03h00

No ano passado, o Festival de Cannes não poderia ter programado uma abertura mais auspiciosa. Um filme do diretor iraniano Asghar Farhadi, vencedor do Oscar e de prêmios em Cannes e Berlim, ainda por cima um filme espanhol do grande cineasta, interpretado por um elenco estelar. Só o trio Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín já garantiria, como efetivamente garantiu, o brilho do tapete vermelho. E, embora não tenha sido tudo isso, Farhadi, na coletiva, incrementou com suas declarações o poder midiático de Cannes.

Disse que era um absurdo que ele pudesse estar ali e Jafar Panahi, cujo filme Three Faces/Três Rostos integrava a seleção oficial, concorrendo à Palma de Ouro, permanecesse confinado no Irã. “É uma sensação esquisita. Falei com Jafar e lhe disse como seria importante que ele estivesse aqui (em Cannes). A acusação contra ele, de que fez propaganda anti-islâmica, é só um artifício para mantê-lo preso em casa. O pedido não é para que o liberem para pegar um avião, e pronto. É para lhe permitam estar aqui para acompanhar a reação do público ao seu trabalho. Todo artista precisa disso. Jafar é um homem íntegro. Não acredito que fosse aproveitar para fugir.” No final, Panahi não conseguiu autorização nenhuma e permanece isolado em sua casa (desde 2010).

Na ausência de Abbas Kiarostami, que morreu em 2016, Farhadi tornou-se, nos últimos anos, o mais internacional dos diretores iranianos. Filmou na França (O Passado) e, agora, na Espanha. Everybody Knows – Todos Já Sabem. Penélope volta à Espanha depois de anos vivendo na Argentina. Vem para o que será uma celebração familiar, um casamento. Reencontra o antigo amor, Javier Bardem, que agora é dono da vinícola que foi de sua família. Reabrem-se velhas feridas.

O marido não a acompanha – é Darín. Inesperadamente, o que era para ser uma festa vira tragédia. A filha de Penélope é sequestrada, e há uma suspeita de que o ausente Darín esteja implicado. A expectativa repousa em Bardem – garantirá ele o dinheiro do resgate? Prepare-se para revelações íntimas que vão complicar as relações.

Não é spoiler o que você vai ler agora, mas Farhadi subverte o suspense e entrega, pouco antes do desfecho, quem são os responsáveis (no plural) pelo caso. Em Cannes, ele se explicou. “Uso ferramentas do suspense, mas Todos Já Sabem não foi concebido como um filme de gênero. Não é um thriller. Como os anteriores (À Procura de Elly, Uma Separação, O Apartamento, etc.), é um estudo de personagens. Gosto de olhar gente, de constatar como as pessoas possuem segredos e podem surpreender. Pode ser lugar-comum, mas quem pode dizer que conhece plenamente mesmo a pessoa com quem vive?”

A ideia de um filme espanhol com o casal Bardem/Cruz começou a ser gestada em Cannes, onde Farhadi conheceu a dupla. Já havia ocorrido algo semelhante em O Passado. Farhadi conhecera Michel Hazanavicius e, através dele, sua mulher, a atriz Bérénice Bejo, que terminou estrelando seu longa francês.

Foram muitas viagens à Espanha – para se ambientar, escolher locações, sentir o clima. “Asghar tinha sempre um intérprete com ele, e havia treinadores com os atores no set, mas eu sempre soube, não é só uma intuição, que ele sabe muito espanhol do que estaria tentado a admitir. Certas instruções que ele dava e, quando fazíamos a cena, sua reação era sempre tão precisa que dava para perceber que ele estava captando tudo, até a mais mínima nuance.”

Mais até do que outros filmes do iraniano, a paisagem é essencial em Todos Já Sabem. Vinhas, vilas, montes. Farhadi tem um olho para o mundo ao redor, mas, no limite, como em outros filmes seus, esse poderia ser adaptado para o teatro, porque o conflito – entre personagens – é muito cerrado, e o drama intensamente dialogado.

“Comecei como dramaturgo e roteirista, então a escrita é sempre decisiva para mim, ainda mais no caso desse filme, numa língua que não domino. Tive a sorte de contar com esse elenco, mas quem se debruçar sobre Todos Já Sabem verá que temas como desaparecimento, o passado, as relações mal resolvidas estão no centro de tudo o que faço.”

Everybody Knows, portanto, pode ser um título com teor de advertência. Mesmo num filme mais fraco – repetindo-se? –, Farhadi e seu elenco ainda cativam. E a combatividade do cineasta continua aguerrida. Além de defender Jafar Panahi, ele também criticou a administração Trump pelo tratamento desumano contra cidadãos de países islâmicos.

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