Michel Euler/AP
Michel Euler/AP

Irã vive momento de orgulho por sucesso de Farhadi e seu boicote ao Oscar

Distribuidores precisaram aumentar o número de sessões do longa no país

EFE

25 de fevereiro de 2017 | 18h50

O filme O Apartamento, do iraniano Asghar Farhadi, foi um sucesso de bilheteria e crítica em seu país, que não esconde seu orgulho pelo reconhecimento internacional da obra e pelo boicote ao Oscar do diretor e da atriz protagonista.

Com sua estreia realizada há seis meses, o Irã presenciou salas lotadas que levaram os distribuidores a aumentar o número de sessões e a marcar algumas até durante a madrugada, apesar das críticas que o filme recebeu dos setores mais conservadores do país.

Os iranianos encheram os cinemas para ver esta história sobre os altos e baixos de um casal, interpretado pelos conhecidos Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini, e as ânsias de vingança do marido por uma agressão sofrida por sua mulher.

Depois foi a vez do seu lançamento em DVD em lojas e bancas de jornais, que até hoje seguem oferecendo entre seus artigos O Apartamento, ou Forushande em idioma farsi, transformado no filme mais vendido da história do cinema iraniano.

"Vendemos este filme 90% mais que outros", disse à Agência EFE em seu estabelecimento comercial no norte de Teerã, Amir Jani, que acredita que seu sucesso se deve ao fato de ser uma história "muito real" e à ótima atuação do elenco.

Para o diretor iraniano Nima Javidi, famoso em nível internacional por seu longa Melbourne, o ponto-chave de O Apartamento é "seu roteiro poderoso" e uma narrativa que deixa o espectador "preso na poltrona durante as duas horas de exibição do filme".

"Farhadi, de modo magistral, mistura a escritura clássica de roteiros com suas experiências pessoais e o resultado atrai o público e captura o coração dos críticos", declarou Javidi à EFE.

"O Apartamento" segue no centro das atenções por sua indicação como melhor filme de língua não inglesa ao Oscar, onde as apostas o colocam como favorito, em parte graças ao boicote do diretor à cerimônia, que será realizada neste domingo.

Farhadi, que em 2012 já ganhou um Oscar de melhor filme em língua estrangeira por A Separação, decidiu não comparecer à festa de premiação em resposta ao veto migratório do presidente americano, Donald Trump, contra cidadãos do Irã e de outros seis países de maioria muçulmana.

O diretor considerou a medida "injusta" e "humilhante", enquanto Taraneh, protagonista de O Apartamento, a qualificou de "racista" e também anunciou seu boicote "em sinal de protesto".

Esta postura foi louvada no Irã, cujas autoridades adotaram medidas recíprocas à suspensão de vistos e mantêm uma guerra dialética com o novo governo americano.

Para os cidadãos e cineastas iranianos consultados pela Efe, a decisão de Farhadi e Taraneh é correta e uma demonstração de respeito com seus compatriotas.

"Estou totalmente de acordo com sua recusa a ir à premiação do Oscar. O povo do Irã é patriota e o protesto deve surgir em todos os níveis sociais", disse o vendedor Jani.

Jani, no entanto, também se mostrou "muito contente" pela indicação do filme, o que considerou "uma honra" e uma oportunidade para que o Irã fique "conhecido em nível mundial".

O jovem Behnam Barjordari, em cuja loja O Apartamento também está em um lugar de destaque, compartilha da mesma opinião: "Deram uma boa resposta a Trump", ressaltou.

Este comerciante expressou à EFE sua esperança de que o filme de Farhadi vença o Oscar porque o mesmo traz ensinamentos necessários para remover consciências na sociedade atual.

Na esfera internacional, O Apartamento já está há um bom tempo no circuito, após faturar no ano passado o prêmio de melhor ator para Shahab Hosseini e de roteiro para Farhadi no Festival de Cannes.

O premiado diretor iraniano, de 44 anos, bateu recorde de prêmios com A Separação (2011), mas ainda pode superar a si mesmo, segundo seu colega Javidi.

"Não duvido que nos surpreenderá com seus novos filmes", garantiu o autor de Melbourne, que também considera apropriada a decisão de Farhadi e de Taraneh de não comparecerem à entrega do Oscar.

Para Javidi, políticas como as de Trump "só semeiam ódio entre as pessoas" enquanto a arte é "mensageira da paz e não conhece fronteiras", algo que pode beneficiar O Apartamento na premiação deste domingo.

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