<i>Os 12 Trabalhos</i> tece crônica realista da cidade de SP

Na camiseta de Heracles, o motoboy de Os 12 Trabalhos, está escrito ?hiroaes? (herói, em grego) e há uma efígie um tanto desbotada de um leão. O diretor Ricardo Elias não chama muita atenção para esses detalhes, mas eles estão em seu filme que estréia nesta sexta-feira, 9. Têm tudo a ver com Heracles, o nome grego de Hércules, o herói que, segundo a mitologia, vestia uma pele de leão e se submeteu a 12 trabalhos para ter acesso ao Olimpo, a residência dos deuses, na antiga Grécia. Heracles, o personagem de Sidney Santiago, também se submete a 12 provas numa única jornada, mas seu Olimpo é mais prosaico - é o nome da agência na qual ele busca emprego como motoboy. Segundo longa de Ricardo Elias, após De Passagem - que venceu o Festival de Gramado em 2005 -, Os 12 Trabalhos ganhou o terceiro Coral (grande prêmio) do Festival de Havana, em dezembro. O Grande Coral foi para O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, outro Coral foi para a atriz Hermila Guedes (no mesmo filme) e o terceiro para o filme de Ricardo Elias, que esta semana está no Festival de Miami e, até o fim de abril, participa de um verdadeiro circuito de festivais nos EUA - San Diego, Chicago, Nova York e São Francisco. Ricardo Elias está contente com a exposição nacional e internacional de seu novo filme, mas o grande teste ocorre agora, com a entrada em cartaz de Os 12 Trabalhos. São sete cópias em São Paulo, um lançamento modesto. Na próxima semana, o circuito agrega mais salas (e cópias), no Rio e no interior do Estado. Ricardo Elias realizou uma sessão de Os 12 Trabalhos para motoboys (leia reportagem). Eles adoraram duas cenas - a do gato e a do gibi. Mesmo com o risco de parecer metido, o diretor considera o novo filme melhor que o anterior. Mas Os 12 Trabalhos surgiu muito próximo do universo de De Passagem. De novo Ricardo Elias e o roteirista Cláudio Yosida queriam falar da inclusão de jovens da periferia. A idéia era um personagem em busca de trabalho. A conseqüência foi a apropriação dos 12 Trabalhos de Hércules, rebatizado como Heracles e de novo buscando o Olimpo. De novo, como em De Passagem, a trama se desenvolve ao longo de uma jornada e o diretor evita a espetacularidade. Durante todo o tempo, o espectador fica na expectativa de coisas que não ocorrem. ?Era uma idéia que já estava no roteiro, mas foi elaborada melhor na montagem?, explica Ricardo Elias. Mais do que um filme a favor ou contra os motoboys, personagens polêmicos mas cada vez mais freqüentes na paisagem do paulistano, o diretor fez de Os 12 Trabalhos uma espécie de crônica da metrópole. Ricardo evita a violência, o sangue (exceto no final), mas para dramatizar a situação, Heracles acaba de sair da Febem e passa por esse dia de teste para ver se arranja emprego na agência Olimpo. ?Ele busca sua redenção?, explica o diretor, que elogia muito o trabalho do ator. ?Sidney constrói no olhar a história anterior de Heracles. Não precisamos ficar insistindo no passado, mas ele está sempre presente. A raiva dele, uma coisa contida, evoca o que deve ter sido essa experiência na Febem.? Quando diz que Os 12 Trabalhos é melhor e mais maduro que De Passagem, Ricardo Elias ressalta que, embora existam similaridades entre os dois filmes (e seus protagonistas), principalmente do ponto de vista social, este aqui ousa mais, em termos de linguagem. ?Defino Os 12 Trabalhos como um sample visual. O filme faz a colagem de estilos e influências.? Este trabalho com a linguagem culmina com a cena do gibi, que Ricardo considera uma espécie de curta-metragem dentro de seu filme. Mas as influências são muitas - ?O final é Truffaut, Os Incompreendidos; o cara falando diante do espelho vem de Taxi Driver, do Scorsese; a perseguição ao gato vem de Couro de Gato, do Joaquim Pedro; e aquela tomada do céu, após o episódio da professora, enquanto o poema está sendo lido e a câmera baixa para o motoboy, é uma homenagem a O Grande Momento, de Roberto Santos, um filme que Cláudio (Yosida) e eu adoramos.? Se os espectadores vão ou não perceber tudo isso, é coisa que não preocupa o diretor. ?Está lá e é o que importa.? A maior influência também é a mais secreta, mas, no fundo, é a que explica tudo. Ricardo Elias ama o cinema do francês Eric Rohmer, um mestre das pequenas banalidades do cotidiano. Impregnar De Passagem e Os 12 Trabalhos de violência cênica seria como soltar Rambo no universo de sutilezas de Rohmer. Os 12 Trabalhos de Hércules foram muito mais difíceis e grandiosos. Os de Heracles, no filme, não bastariam para construir a reputação de um semideus. ?Mas humanizam o personagem e esse é o conceito do filme. Depois de assistir a Os 12 Trabalhos em sessões especiais, várias pessoas vieram me dizer que estão vendo os motoboys de forma diferenciada.? E ele está feliz por isso. Até aqui, Ricardo Elias tem falado de gente que flerta com a criminalidade, chega perto dela, mas não faz parte desse mundo. Ele está desenvolvendo atualmente três projetos. Num deles, chamado Beatriz, a criminalidade finalmente entra em seu cinema, filtrada pelo olhar de uma garota, que namora um criminoso.?

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