<i>O Violino</i>, atração obrigatória para cinéfilos

Ele já participou do Festival de Cannes, ganhou o de Gramado, passou pela Mostra de São Paulo e esteve recentemente em Havana. O Violino, filme de estréia do mexicano Francisco Vargas Quevedo, tem, invariavelmente, encantado as platéias mundo afora. Festival ganha-se ou não. Às vezes há um concorrente melhor, ou que cai mais no gosto dos jurados. Mas há um índice seguro sobre um filme: é quando, independentemente de prêmios, torna-se assunto obrigatório entre os cinéfilos. E não se fica indiferente diante de O Violino. Uns gostam mais, outros menos, mas a maioria concorda: trata-se de algo especial, desses que aparecem apenas de vez em quando. Essa característica poderia ser resumido numa palavra ou duas: tem caráter, personalidade. A começar pelo rigor da filmagem em preto-e-branco, rara hoje em dia e, mesmo quando aparece em algum filme contemporâneo, às vezes usada como maneirismo, que é o exagero demonstrativo de um estilo. Em O Violino o P&B vem como recurso necessário da narrativa. A história pede que seja assim. Há alguns pontos interessantes nessa narrativa: em algum país indeterminado existe um governo ditatorial. A manutenção da "ordem" está nas mãos, e nos coturnos, do Exército. Existe também um movimento de resistência. Na história, ele se localiza no interior do país, no meio rural. São os camponeses que compõem a oposição a esse governo opressor, que pode ser o de qualquer país latino-americano, possivelmente nos anos 60 e 70, quando as ditaduras militares eram a forma comum de governo da região, devidamente estimuladas por quem tinha interesse em manter um certo status quo e defender-se contra lutas de libertação alinhadas à esquerda. Em meio a essa luta há um velho camponês, dom Plutarco (dom Ángel Tavira), que tem apenas uma mão, mas toca seu violino com arte. Seu par complementar surge na figura de um oficial amante da música. A tensão sobe no vilarejo local porque há um estoque de armas e munições que pode servir à guerrilha, e do qual o Exército quer se apoderar. Uma situação de guerra, em suma. E guerra de guerrilhas, com a característica usual - combatentes infiltrados na população. Não se trata de um embate entre exércitos convencionais. Neste caso, do ponto de vista do Exército, o inimigo pode estar em qualquer parte; pode ser qualquer um. É um combate nas sombras, já retratado em vários filmes latino-americanos, como em Boca de Lobo, do peruano Francisco Lombardi, ou Clandestinos, do cubano Fernando Pérez. Situando-a em um país indefinido, Quevedo fala de todas essas lutas e de nenhum em especial. Interessa-lhe mais mostrar a tensão de um combate invisível e passar essa impressão ao espectador. Vale-se de alguns trunfos interessantes em sua busca de autenticidade. Uma delas, a mescla de atores profissionais com verdadeiros camponeses mexicanos, que interpretam seus próprios papéis. Ou papéis que teriam, caso uma luta política armada estivesse se desenvolvendo em seu território. O filme é tenso, empolgante às vezes e comovente em outras. A beleza visual não esconde a violência latente e os riscos escondidos a cada passo. Mas esse clima vem muito mais da angústia da espera do que da ação propriamente dita. É um filme dos espaços largos, que joga com o tempo e com a expressão facial dos atores muito mais do que com o movimento e o diálogo. Econômico, tira dessa poupança de recursos aquela força que chega até nós. Bem cotado Bastante elogiado pela revista francesa Cahiers du Cinéma, O Violino abre uma alternativa no cinema de empenho artístico do México. Não cai, segundo a revista, no "miserabilismo barroco" de Carlos Reygadas (de Japón e Batalla en el Cielo), nem na "babelização" de Iñárritu e Del Toro. Segundo essa interpretação, com a qual se pode concordar, mas apenas de maneira parcial, existem no México cineastas como Quevedo capazes de propor uma terceira via entre o localismo de uns e a tendência mais globalizante de outros. Curiosamente, esse artigo da Cahiers sobre O Violino foi escrito antes que se conhecessem as múltiplas indicações para o Oscar dos dois outros cineastas citados. Guillermo Del Toro, com seu O Labirinto do Fauno, levou seis indicações da Academia. E Babel, de Alejandro González Iñárritu, sete, entre as quais as de melhor filme e diretor. É tido mesmo como o favorito na corrida do Oscar. Portanto, esses são mexicanos que se mexem muito bem nas fronteiras globais e as ultrapassam com facilidade. Estão fazendo filmes para o mundo. Já Reygadas, com seu barroquismo e temáticas por vezes consideradas indigestas demais, tende a viajar com mais dificuldade para outros públicos É cineasta para poucos. Entre eles ficaria então Quevedo, e sua terza via. O filme é mexicano em sua concepção mais profunda, mas tem a habilidade de ambientar-se em uma terra de ninguém - e portanto de todos. Sua identidade maior está baseada no idioma e nos rostos, que não se poderiam encontrar em qualquer outra parte que não em seu país natal. Ao mesmo tempo, tempera esse localismo com dois temas universais, como a violência política e a ternura musical. E, acima de tudo, apóia-se num personagem que de fato merece o surrado adjetivo de inesquecível. Quem viu dom Plutarco na tela, tocando seu violino tosco e melodioso com uma mão só, não se esquece jamais. Agora é esperar pelo próximo trabalho de Quevedo. O Violino (El Violin, México/ 2006, 98 min. ) - Drama. Dir. de Francisco Vargas. 16 anos. Cotação: Ótimo

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