<i>O Homem Duplo</i>, enredo policial com animação

O Homem Duplo, de Richard Linklater,seria um filme banal não fosse a técnica empregada. A história,tirada de um romance de Philip K. Dick, é a de um policial(Keanu Reeves) que investiga o tráfico de uma droga devastadoramas se transforma, ele mesmo, em uma vítima. A novidade é tudoser filmado de maneira convencional, mas tendo depois as imagenstratadas pela computação gráfica e técnicas de animação. O quese tem então é uma espécie de cartum animado, decalcado no corpoe no rosto dos atores. Linklater já havia usado o mesmo procedimento nopseudo-intelectual Waking Life, que chegou a concorrer noFestival de Veneza sem maiores resultados. Enfim, é umprocedimento original, que possibilita todo um tratamento decores e movimentos pouco convencionais. A idéia de Linklater, tirada de Dick, passa menos poruma investigação policial do que pela questão da identidade. Oromance foi escrito em 1977 e se trata de uma ficção científicaque põe em questão justamente a noção de identidade, algoproblemático na contemporaneidade. Quem somos? Habitados eperpassados por redes de informação, manipulados pelapublicidade que se torna onipresente, onde estará um hipotéticoespaço de liberdade onde seja possível, de fato, dizer que o meu"eu" é real e não uma mera ficção. Essa dissolução do eu é uma questão filosófica moderna epõe em dúvida não apenas a autonomia dos gestos cotidianos decada um de nós como a própria noção de autoria, conformeobservou Michel Foucault em diversos escritos, incluindo AsPalavras e as Coisas, uma de suas obras mais importantes,quando diz que o homem talvez não passe de uma pegada sobre aareia, em via de desaparição ou durável até a primeira maré. Esse pequeno interlúdio filosófico serve apenas paramostrar que as questões colocadas por Dick - e resumidasdramaticamente por ele em uma hipotética droga alucinógena - sãoprementes na cultura ocidental há pelo menos uns 40 anos. Datado início da nossa pobre modernidade, quando a noção muito fácilde identidade começou a se mostrar frágil, quebradiça esobretudo muito problemática. Nesse sentido, Dick, e agora Linklater, procuramtematizar essas inquietações numa história de tipo policial, quesempre se presta bem a esse tipo de indagação. Isso porque opolicial, ou o detetive, são aqueles que saem em busca de alguma"verdade" escondida. No caso dos policiais clássicos, essaverdade acaba por aparecer. Nos melhores "noirs", ela se mostraambígua. E num noir moderno, fora de época, como é o caso deChinatown (1974), de Roman Polanski, essa "verdade", além detrágica, pode mesmo não existir. Em O Homem Duplo, assim como em Matrix, tudo é aindamais diáfano. No filme dos irmãos Wachowski não existe um pontoexterior do qual se possa observar, e portanto toda a percepçãodo processo estará comprometida. Em O Homem Duplo há isso, maspassando pela dissolução da identidade, um visão do mundo realque se poderia chamar de paranóica. O mundo de Bob Arctor, que éuma persona possível de Keanu Reeves, é o mundo da droga etambém do terrorismo. Não parece absurdo que a incorporação da guerra dosEstados Unidos contra o terror tenha sido comentada por estefilme, ou que pelo menos Linklater tenha tentado fazê-lo. Comose sabe, o terrorismo abole a guerra convencional, e o inimigojá não é mais identificável. Ele pode estar entre nós. E é issoque normalmente ocorre. Ele anda conosco nas ruas, e usa nossasarmas contra nós. Afinal, convém lembrar, nos atentados de 11 desetembro as armas de guerra foram aviões da frota civil dosEstados Unidos. É pena que todas essas referências interessantes sejamrelativamente desperdiçadas numa trama cheia de lugares-comuns.Como se a novidade radical apresentada pelo filme tivesse de sertemperada com a expectativa de mesmice embutida em toda produçãocomercial. Assim, um bom ponto de partida e algumas intuições dodiretor se perdem nesse pudim rotineiro. Pensando bem, "O Homem Duplo" é um filme banal, mesmocom sua técnica inusitada.O Homem Duplo ("A Scanner Darkly", EUA, 100 min) - Animação.Dir. Richard Linklater. 16 anos. Cotação: Regular

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