VITRINE FILMES
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‘Invisível’ reforça a parceria entre cinema de Argentina e Brasil

Diretor Pablo Giorgelli, de 40 anos, tem no currículo a prestigiada Caméra d’Or, a Palma de Ouro para cineasta estreante, que recebeu por 'Las Acacias'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2017 | 03h00

Cinéfilos de carteirinha já devem ter-se dado conta da parceria. O cinema argentino tem se beneficiado da associação com o brasileiro. Na entrevista que deu durante o Festival do Rio, Lucrecia Martel disse ao Estado que não teria conseguido fazer Zama sem o aporte da produtora brasileira Bananeira Filmes, de Vânia Catani. Na Mostra, Diego Lerman também deixou claro que sem a Bossa Nova Filmes não teria logrado seu belo longa Uma Espécie de Família. E nem Andrés Habegger teria feito Em (Im)possible Olvido sem a Taiga Filmes de Lúcia Murat. Agora mesmo está em cartaz, desde o dia 9, Invisível

O novo longa de Pablo Giorgelli marca a primeira produção internacional de Sílvia Cruz. E por meio da distribuidora dela o filme está em cartaz pelo Projeto Vitrine Petrobrás, com ingresso mais barato.

Giorgelli é o diretor de Las Acacias, sobre o caminhoneiro que dá carona a uma mulher com um bebê. Saem do Paraguai, rumo a Buenos Aires. Apesar de solidário, ele não quer conversa. Mas algo se passa na cabine do caminhão, que faz com que ambos desarmem os respectivos olhares e iniciem uma relação. Esse ‘baixar a guarda’ passa pela bebê – é menina. 

Há agora outro bebê no centro de Invisível. Na verdade, esse bebê ainda não existe e está sendo gestado. A mãe é uma adolescente. Estuda, e no período vago trabalha numa clínica veterinária. Torna-se amante do filho do dono. Engravida e quer tirar a criança.

O aborto é ilegal na Argentina e a jovem Ely – é seu nome – tenta abortar mediante medicamento, mas é controlado. No limite, ela termina contando para o pai da criança, que a leva a uma clínica. Las Acacias era um road movie passado quase todo na cabine do caminhão. Em alguns momentos, o novo filme parece um road movie urbano – com um cuidado muito grande, Giorgelli filma os deslocamentos de Ely na cidade. Quando não está em cada, ou na escola, ou ainda na clínica, Ely está indo ou voltando de um desses lugares. Pega ônibus para lá, para cá. Conversa com a amiga, que sabe de sua situação e a ajuda.

Giorgelli também veio ao Brasil – ao Rio – acompanhar as exibições de Invisível no festival. Disse algo interessante ao Estado: seu filme pode até colocar uma questão ética na abordagem do aborto – fazer ou não fazer –, mas na verdade é sobre outra coisa. É sobre a relação de Ely com sua mãe. A garota tenta motivar a mãe, que está doente, com depressão. Não sai de casa, fica sempre na cama, com a TV ligada. A rotina da filha passa sempre pelo ato de desligar a televisão. E Ely, mesmo que não esteja deprimida como a mãe, certamente está atravessando uma crise. Na aula, poderíamos dizer que sofre de distúrbio de atenção, mas é só desinteresse. Na TV, a mesma coisa. E até na hora do sexo, dentro do carro, ela parece ‘desligada’.

Ely vai repetir a história da mãe? O filme não fornece respostas precisas, mas dá conta, realisticamente, dessa trajetória. Nada de espetacular. Tudo pequeno. Não vemos a imagem da TV nem o professor. Só a voz. A invisibilidade dá o tom. Gente de classe média baixa, num bairro operário. A própria Ely é invisível para o mundo, com seu drama que passa despercebido. A essa altura, o leitor já deve ter-se perguntado – mas o filme não é chato? Não. Invisível, mesmo com o aporte brasileiro, tem a cara do cinema argentino. Pequenas histórias – pequenas vidas – filmadas com precisão. Antoine de Saint-Exupéry, por meio de seu Pequeno Príncipe, cunhou uma frase que ficou famosa – “O essencial é invisível aos olhos.”

O diretor passa o filme inteiro tentando tornar essa invisibilidade palpável. Na entrevista (abaixo), ele conta como teve de esperar pela atriz. Mora Arenillas é essencial para o projeto. Como os personagens de Las Acacias ela não é de muita conversa. Pequenos gestos, olhares. Giorgelli teve seu filme selecionado na mostra Orizzonti, de Veneza. Um filme autoral, exigente. Muito bem feito e interpretado. 

E ele diz: “Faço os filmes que quero, como quero. Para entender o mundo e as pessoas, não para ganhar dinheiro.” Arte. E ele confessa, brincando: para sobreviver, tem, com amigos, um bar em Buenos Aires, na célebre Avenida Corrientes.

ENTREVISTA - Pablo Giorgelli, diretor

Pablo Giorgelli, de 40 anos, já tem no currículo a prestigiada Caméra d’Or, a Palma de Ouro para diretor estreante, que recebeu por Las Acacias. O novo longa o reafirma como grande diretor.

Seu filme é muito verossímil. Como conseguiu isso?

Filmei no bairro em que cresci, no conjunto de apartamentos em que morava quando criança. Pertenço a uma família de trabalhadores e me parecia importante situar essas pessoas. Ely, sua mãe. Ao mesmo tempo, tem havido uma pauperização na Argentina que o filme também reflete.

Cada etapa do seu roteiro tem uma função na construção dramática do dilema moral que a garota enfrenta. Concorda?

A questão ética é sempre decisiva para mim, então, sim, o roteiro tem essa função. O filme não resolve o drama de Ely, mas nos ajuda a entender o que se passa com ela, com sua mãe. Estou falando de pessoas invisíveis, num mundo que exclui. Ely tem uma atitude aparentemente passiva, mas tudo o que ocorre é para expressar a tormenta que cresce dentro dela. Ely e a mãe têm muito em comum. Na verdade, mais que sobre a gravidez e o aborto, é sobre as duas.

A atriz é fantástica. Como encontrou Mora Arenillas?

Fiz um casting e ela foi das primeiras e a primeira que me impressionou. Mas era muito jovem. Segui buscando, e nada. Passaram-se quase dois anos, voltei a Mora e ela era perfeita. Devo muito a ela e sua entrega.

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