Invictus emociona e permite catarse no cinema

Como resistir diante do triunfo de Nelson Mandela desenhado com sensibilidade por Clint Eastwood

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

28 de janeiro de 2010 | 15h57

Morgan Freeman como Nelson Mandela e Matt Damon, como treinador de rúgbi. Foto: Divulgação

 

SÃO PAULO - E se Clint Eastwood tiver feito Invictus para calar os detratores de Gran Torino? O filme anterior era um dos mais belos - e talvez o mais emocionante - de sua carreira, mas muitos reclamaram justamente do personagem que ele próprio interpretava, esse gringo que encarnava os mais sólidos valores da sociedade norte-americana - não era por acaso que aquela máquina representava uma relíquia para ele -, a ponto de se sacrificar no desfecho.

 

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O caráter sacrificial, cristão, já estava no herói de O Cavaleiro Solitário, que refazia a trajetória de Shane - o personagem mítico do western clássico de George Stevens - no Velho Oeste, mas o tema das escolhas morais também se fazia presente numa obra mais polêmica e que quase nunca é reputada entre as melhores do autor, O Jardim do Bem e do Mal. Nelson Mandela é a nova versão do personagem de Clint em Gran Torino.

 

Talvez a provocação do grande diretor tenha sido buscar na realidade um personagem capaz de dar sustentação ao delírio de sua ficção. Encontrou-o em Mandela, o político sul-africano que enfrentou - e derrotou - o apartheid, mas cujo maior desafio talvez não tenha sido sobreviver àquela prisão que o filme mostra nem ao isolamento de quase duas décadas. O desafio foi a chegada ao poder num país dividido. Como transformá-lo numa nação, como lhe dar uma unidade?

 

O Mandela de Clint é Morgan Freeman, que não busca necessariamente a semelhança física, preferindo encarnar o espírito do personagem. É um conciliador, comprometido com um projeto que o supera, ou ultrapassa. A unidade é seu objetivo final. Para atingi-la, é preciso respeitar e aceitar o outro - como o Clint que pegava em armas para morrer, não para matar, em Gran Torino.

 

Logo no começo de Invictus, um quadro é desenhado rapidamente. Mandela ganhou as eleições, toma posse para uma nova etapa da história da África do Sul. Mas ele é empossado sob desconfiança da sociedade branca, que teme o revanchismo. Mandela pede aos burocratas da antiga administração que permaneçam em seus cargos, incorpora seguranças brancos aos negros que já formavam sua guarda pessoal.

 

Tudo isso não se faz sem tensões, desconfianças e, algumas vezes, Clint Eastwood força a barra para carregar, dramaturgicamente, no aumento dessa tensão. Há uma armação de atentado, na cena com a van, quando ele faz sua corrida matinal, assim como mais tarde o voo rasante sobre o estádio deixa o público em dúvida quanto às intenções dos pilotos.

 

Essa disposição para o diálogo isola Mandela em seu grupo familiar. A filha, seguindo a trilha da mãe, o considera um traidor da causa negra. A economia está em crise. É quando o projeto do Mandela de Clint começa a se desenhar.

 

Ele percebe que o esporte poderá unir o país dividido. Para surpresa de sua assistente pessoal, seu interesse, em vez da crise, passa a ser o rúgbi. Contra todas as probabilidades, Mandela vai apostar na equipe sul-africana de rúgbi, que não tem nenhuma chance na Copa do Mundo do esporte.

 

A eventual vitória da seleção servirá para a integração nacional. Você já viu este filme, ao vivo e em cores. As ditaduras militares do Brasil e da Argentina usaram a Copa do Mundo de futebol para se legitimar. É diferente, aqui. Mandela/Morgan Freeman se une ao personagem de Matt Damon, o jogador. Faz um pacto com ele e, para isso, precisa ganhar a confiança de Matt, o apoio de sua família - que continua praticando o apartheid em casa.

 

É um filme sobre família - famílias, no plural -, mostrando personagens fraturados em suas relações familiares. Matt Damon aproxima-se de Mandela e isso provoca certa reação em sua casa. A família, de repente, não é a de Mandela (a filha que assiste e se emociona na partida decisiva), a de Matt. É o país.

Invictus chamava-se, originalmente, The Human Factor. O fator humano é que faz a diferença no cinema de Clint Eastwood (estrela de cinema favorita dos americanos, segundo pesquisa realizada anteontem pela empresa Harris Interactive, batendo concorrentes como Johnny Depp e Denzel Washington).

Mandela é um estrategista que triunfa e o filme é a história da escalada de sua estratégia. Ele não muda ao longo do filme. É uma fortaleza humana. Sabe o que quer - o mundo é que muda.

 

O risco de Invictus seria cair na hagiografia, fazendo de Nelson Mandela um santo. Clint e seu extraordinário ator não permitem que isso ocorra. O jogo, no estádio, tem seu contraponto nas casas, nos bares. A câmera concentra especial atenção neste garoto negro de rua, que começa a gravitar em torno do carro dos policiais (brancos). É toda uma história - emocionante - de aproximação entre extremos. Não deve ser difícil encontrar os defeitos de Invictus. Mais gratificante é viajar nas suas qualidades e desfrutar da catarse que o novo Clint, sabiamente, permite.

 

Invictus (Invictus, EUA/ 2009, 134 min.) - Drama.  Dir. Clint Eastwood. Livre. Cotação: Bom

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