Intimista e político, "Lara" chega às cenas finais

Uma locação no bairro de Santa Teresa. Ana Maria Magalhães roda uma cena muito importante de Lara, sua ficção baseada na vida da atriz Odete Lara. A cena passa-se nos anos 60, após um evento político, uma manifestação de rua. O quadro é o seguinte: o regime militar, baseado na nova Lei de Segurança Nacional, pode investigar a vida de quem quer que seja - prendendo, batendo, torturando. Os personagens que participam da cena são a própria Lara, interpretada nesta fase por Christine Fernandes, e Guima, o ator Caco Ciocler. Guima é um personagem de ficção que reúne características de dois grandes amores de Odete naquela época - o ator e dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, e o compositor Tom Jobim.Ela não quer que se diga. Refere-se a Guima, simplesmente, como se tivesse existido, como se fosse ele próprio um personagem real. Quer evitar problemas pela associação de Guima com um personagem real. Essas coisas são sempre complicadas, quando se faz ficção com personagens reais. No filme, Guima tem atuação destacada contra a ditadura, é líder de classe, um intelectual engajado. Há perigo no ar. Lara tenta descontraí-lo. Recita um trecho da peça Liberdade, Liberdade, que Odete realmente interpretou, substituindo Teresa Rachel. A cena termina com os dois fazendo amor. "Não fazendo amor", corrige a diretora. "Termina com um nos braços do outro, ele no colo dela, ela no colo dele, numa atitude de abandono." Esta é a terceira semana de filmagem desta fase de Lara, a que cobre os anos 60. Ana Maria roda as últimas cenas por estes dias. Na sexta, filmou a tentativa de suicídio de Odete, quando ela, desesperada, coloca a cabeça no forno, para morrer asfixiada. É salva pelo que parece uma piada - faltou o gás. No sábado, rodou uma cena já de outra época do filme, nos anos 70. Uma cena do fim, que se liga ao começo.O filme é um longo flash-back. Odete sofre um acidente de carro, (re)vê o filme de sua vida. Ela mata uma ovelha. Ao enterrar o animal, enterra simbolicamente seu passado e renasce para uma outra vida, bem de acordo com o que ocorreu com a própria Odete e que ela narrou nos três livros - Eu, Nua, Minha Jornada Interior e Meus Passos no Rumo da Paz - que serviram de suporte para o roteiro escrito por Ana Maria com Rita Buzzar.Na cena rodada no sábado, Lara sai do carro acidentado e encontra um homem que se assemelha a um monge moderno, personagem que tem uma participação breve na história, mas tão emblemática, tão importante que Ana Maria recorreu ao diretor José Celso Martinez Corrêa para interpretar o papel. Ana Maria está feliz. A filmagem de Lara está chegando ao fim. Ela ainda tem muito trabalho pela frente. Precisa captar, no fim do ano, por meio da Lei do Audiovisual, o dinheiro que lhe falta (cerca de R$ 400 mil). Precisa acertar os detalhes que ainda faltam para efetivar a participação da Itália na finalização. Odete, afinal de contas, é de origem italiana. Há um procurador de Ana Maria que busca efetivar, na Itália, essa parceria.Cansada, sim, mas satisfeita. Há quatro anos Ana Maria vive intensamente esse projeto. Na verdade, carrega Lara há muito mais tempo, pois desde que leu Eu, Nua a identificação foi completa. Tudo a levou a esse filme. "Odete é um mito do cinema brasileiro", diz. Quis humanizar o mito, decifrá-lo mesmo. "Como mulher e atriz, desde que li o livro fiquei siderada." Por meio de Odete é possível falar, em Lara, sobre a (r) evolução da mulher brasileira nos anos 50 e 60. É possível falar sobre acontecimentos importantes da história brasileira recente, como a resistência à ditadura. "Lara é a história de uma mulher, uma história de amor, mas a política se imiscui nas relações interpessoais", explica Ana Maria. Por isso, é um filme que se pretende político e intimista, para dar conta da personagem e sua época.Atriz de obras importantes, diretora de Erotique, que não era exatamente uma maravilha, Ana Maria dá aqui seu grande passo para uma formação autoral. "O filme está muito maduro, valeu trabalhar nele todo esse tempo, me sinto mais segura", ela diz. O desafio de filmar o mito, a vontade de dar um testemunho de época, tudo isso é verdadeiro. Mas houve um motivo mais pessoal que a levou a Lara. "Foi o Antônio Calmon que me seduziu para fazer esse filme; ele achava que tinha tudo a ver comigo; tem mesmo." Ana Maria consegue entender a dor da personagem.Sua trajetória pessoal também foi sofrida, talvez menos que a de Odete, perseguida pelo suicídio da mãe, do pai, pelos amores fracassados, pelas drogas, mas de qualquer maneira o suficiente para estimular a identificação. A busca da transcendência que levou a Odete real ao budismo é entendida e assumida por Ana Maria, mesmo que sua jornada interior não seja exatamente essa.Maria Manuela fez a jovem Odete, na primeira fase do filme, nos anos 50. Christine Fernandes, que cria o papel nos 60, início dos 70, é conhecida do público de TV por novelas como Esplendor, onde fazia a vilã, Flávia Regina. Sempre quis frazer cinema. Já está no quinto filme. Só um estreou - O Trapalhão e a Luz Azul. Vieram depois O Xangô de Baker Street, Amores Possíveis, Duas Vezes Helena e agora Lara, todos recém-concluídos ou em fase de finalização. Caco Ciocler, o Guima, também está no elenco de O Xangô de Baker Street. Ator de teatro (Rei Lear, a montagem com Raul Cortez), participa de dois filmes que integram a programação do atual Festival de Brasília. O Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, e Minha Vida em Suas Mãos, de Maria Zilda Bethlem (dirigido por José Antônio Garcia). Ciocler deixou loucas as mulheres em Brasília. É o chamado ator hormonal, que mexe com os hormônios das mulheres. Aos 29 anos, ele tem bagagem cultural e currículo para ser levado a sério. Disserta sem medo sobre Shakespeare, cita outros trabalhos importantes no teatro. A etiqueta de ator sexy não incomoda, mas ele quer saber a faixa etária das mulheres que estão loucas por ele em Brasília. Por quê? "Houve uma sessão do filme em São Paulo em que as mulheres que queriam alguma coisa comigo eram de uma idade mais avançada." Fantasiar é livre, mas ele, delicadamente, deixa subtendido que aí não dá.

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