Adriana Rego Barros/Divulgação
Adriana Rego Barros/Divulgação

Intimismo e revisita à tropicália no Recife

'Vamos fazer um brinde' e 'JMB, o Famigerado' na quarta noite da mostra

Luiz Zanin Oricchio / RECIFE - O Estado de S.Paulo,

05 de maio de 2011 | 06h00

A equipe de Vamos Fazer Um Brinde fez uma apresentação emocionada (e emocionante) do seu filme no palco do Centro de Convenções Guararapes. Um elenco de belas mulheres, uma delas aniversariante, recordando a dificuldade de realizar obras de baixo orçamento no País. Os codiretores, Cavi Borges e Sabrina Rosa, chegaram às lágrimas. Sabrina é também uma das atrizes do longa.

Em princípio, é um filme coral, sem protagonistas definidos; ou melhor, todas são protagonistas nessa noite única que forma a história. Noite de ano-novo, no apartamento de uma delas. O único homem que entra na trama é um rapaz gay. Todas são jovens, com exceção da mãe de uma delas, que penetra na festa a pretexto de dar uma mãozinha na cozinha. A noite avança e os conflitos vão surgindo. Uma delas está grávida e o marido sumiu; ela desconfia que ele está com outra. A mulher mais velha bebe demais. Uma jovem aparece e tenta reatar o caso com a ex-namorada. Outra, tem ligação com um homem violento e não consegue se desvencilhar dele. Culmina com a garota que recebe uma proposta de casamento e ficou de dar resposta ao candidato a marido até meia-noite.

Os diretores optam pela filmagem em ambiente único, com raras inserções de imagens captadas em outros locais - imagens evocativas das personagens em outras situações de vida. No todo, o filme é concentrado, com a câmera acompanhando as atrizes de perto, enquadrando-as ora em grupo ora em closes individuais. Tudo muito próximo, íntimo e clean - como convém a justamente um filme intimista. O projeto é simpático e as mulheres são lindas, todas negras, salvo uma delas. Sobra, no entanto, uma impressão de superficialidade que não consegue ser desfeita quando se pensa na obra mais a fundo. Parece biodegradável, e não deixa resíduo.

Já o outro concorrente da noite, JMB, o Famigerado, de Luci Alcântara, resgata uma figura importante do meio intelectual do Recife, o poeta, multimídia, tropicalista e performer Jomard Muniz de Britto. Jomard é mesmo uma figuraça, irreverente e experimentador de formas em seu trabalho literário. O filme tenta seguir essa "estrutura não estruturada", para explodir em mil direções, mas só consegue empilhar depoimentos não raro repetitivos e sempre elogiosos ao personagem. Acaba sendo apenas desarticulado na forma, embora o comentário possa parecer careta, termo recorrente no filme. Na entrevista (à qual Jomard não compareceu), Luci investiu na performance - em consonância com sua própria proposta. Chamou de preguiçoso a quem achou o filme longo demais e disse que se sentia muitíssimo bem ao receber críticas de quem não tinha poder para alterar a sua obra: "O filme é meu e quem achar uma m..., que levante e vá embora". Falou e disse.

BASTIDORES

Projetos

Zelito Viana está lendo Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, que pode ser seu próximo longa. O diretor recebeu homenagem do festival, lançou sua biografia (escrita pela filha Betse de Paula) e apresentou documentário sobre Augusto Boal.

Tempo

O mau tempo tem atrapalhado o Cine PE. Alagamentos e trânsito caótico dificultam o acesso ao cinema que, mesmo assim, registra até 2.200 pessoas por noite.

Mostra brasileira em Paris

Ubiratan Brasil

Homenagem a Jorge Amado e exibição do inédito 4 X UPP marcam a 13ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, iniciado ontem, na capital francesa. A expectativa dos organizadores é atrair cerca de 6 mil pessoas durante os 14 dias de evento, que apresentará 30 longas-metragens.

"A intenção do festival é revelar a diversidade do cinema brasileiro autoral, com filmes que atendam às expectativas dos franceses. Exibimos, ocasionalmente, títulos mais comerciais, mas se o assunto puder despertar algum interesse no público parisiense", diz Kátia Adler, da Jangada Association, empresa responsável pela organização.

Jorge Amado será lembrado com a exibição de cinco longas inspirados em sua obra, como o já clássico Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto. Outro homenageado será o diretor Nelson Pereira dos Santos, que estará presente no festival, acompanhando a exibição de sete de seus filmes, como o premiado Vidas Secas (1963).

4 X UPP é coordenado pelo cineasta Cacá Diegues. Trata-se de um filme em quatro partes, dirigidas por cineastas de comunidades cariocas. Cacá também participou da realização de 5 X Favela: Agora Por Nós Mesmos, exibido no ano passado em circuito comercial e agora figurando na mostra de documentários do festival em Paris.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.