'Interestelar' vai aos confins do universo para propor um encontro interior

McConaughey e Anne Hathaway protagonizam o longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2014 | 03h00

Encontros distantes de um novo tipo. Assim a revista Empire diz que poderia ser, ou ter sido, o novo Christopher Nolan, Interestelar. Há oito anos, o filme que estreia hoje começou a nascer como um projeto que o físico Kip Thorne levou à empresa Paramount, que indicou a produtora Lynda Obst para o acompanhamento. Thorne já colaborara com Robert Zemeckis em Contato - de 1997, com Jodie Foster e, sim, Matthew McConaughey - e estava interessado em ficcionalizar suas pesquisas sobre tempo e espaço. Steven Spielberg seria o diretor, e chamou Jonathan Nolan, o irmão de Christopher, para criar o roteiro com Thorne. Passaram-se três anos, Spielberg desinteressou-se (e caiu fora). Entrou Christopher, que seguia discretamente os avanços do irmão. Jonathan, afinal, foi corroteirista de Memento, Insônia e da trilogia Batman, Cavaleiro das Sombras.

Espaço e tempo são coordenadas sempre presentes no cinema de Christopher Nolan. Você poderia dizer - em qualquer filme narrativo, que precisa de um lugar e um tempo para situar os personagens (e contar as histórias). Mas basta pensar em A Origem/Inception para ver como Nolan gosta de encarar o assunto. Isso é, de forma subversiva. Foi o que ele fez em Interestelar, somando às teorias de Thorner as suas ideias. Com base nas pesquisas do artista visual M. C. Escher, que relativizava a perspectiva, de forma a produzir construções impossíveis, Nolan estabelece narrativas que exploram conceitos como infinito e metamorfoses. Essas nada mais são senão padrões geométricos que se entrecruzam e transformam para criar formas completamente diferentes.

O próprio Nolan brinca. Sempre existiram rumores de que seria chamado para fazer James Bond, e ele fez A Origem. Depois, que era o diretor ideal para o novo Star Wars, mas o escolhido foi J. J. Abrams e ele fez Interestelar. Na abertura, o filme parece um (falso) documentário, com velhos que dão seu testemunho sobre um tempo em que a vida na Terra começou a ficar impossível. Tempestades de areia transformaram o pó numa ameaça cotidiana a destruir os pulmões das pessoas e secar plantações - num mundo em que ficou cada vez mais difícil alimentar 6 bilhões de pessoas. O documentário rapidamente evolui para uma ficção. Matthew McConaughey - ele, de novo no universo relativo de Kip Thorne - faz um ex-piloto da Nasa que virou agricultor. Cooper é seu nome e ele termina embarcando numa singular odisseia no espaço. Sua missão, ele pensa, será descobrir novos planetas capazes de abrigar a espécie humana, em seu planeta de origem. Não é bem isso que o cientista Michael Caine vai preparar para ele, e Cooper, acompanhado pela própria filha de Caine - Brand (Anne Hathaway) -, vai fazer descobertas (e escolhas) difíceis.

A primeira delas é deixar na Terra a filha pequena, que vai crescer amargurada, certa de que o pai a abandonou - a ela e à humanidade inteira - para morrer. Murph nunca vai desistir de encontrar uma solução para o problema quântico que poderá resolver o drama humano. A forma como isso ocorre é das mais engenhosas e inclui um labirinto escheriano, uma construção improvável, para não dizer impossível, em que Cooper, lá pelas tantas, vai poder acompanhar todas as idades da filha. É uma frase significativa de Christopher Nolan: “Não se pode agir/filmar como se 2001 não existisse”. Ele se refere à obra-prima de Stanley Kubrick e a odisseia espacial de 1968 impregna seu filme como impregnou, no ano passado, Gravidade, de Alfonso Cuarón (com Sandra Bullock).

A gravidade é o problema e a solução de Interestelar, e os Nolan - Christopher e Jonathan - não deixam de brincar com Kubrick quando a professora da garota Murph, querendo desautorizar seu pai, diz que a descida do homem na Lua foi uma farsa encenada para acelerar a queda do comunismo. Qualquer cinéfilo sabe que existem rumores de que Kubrick foi quem encenou a farsa para a Nasa - e depois distribuiu signos por seus filmes seguintes, já que estava formalmente impedido de admitir/divulgar o fato. Como Kubrick, e Arthur C. Clarke, os Nolan (e Cuarón e o seu filho Jonas, que escreveu Gravidade) acreditam que, para atingir o impossível, a primeira coisa a fazer é transpor os limites do possível.

Christopher Nolan não tem feito outra coisa. É um visionário que tem se utilizado dos meios que o cinemão (Hollywood) lhe permite usufruir para discutir questões das mais relevantes. A série Batman com frequência aborda o risco de um novo fascismo, metamorfoseado em sistemas de vigilância e suposta liberdade de informação. No novo Nolan, Coop vai aos confins do universo, atravessando o buraco negro, para o que, no fundo, é a mais íntima das viagens. Seu reencontro com a filha. A chave de Interestelar é uma frase que Coop diz a Murph: “Os pais existem para legar memórias aos filhos”. Interestelar fala muito em “eles”, como se fossem seres superiores (ETs?). Só que “eles” somos “nós”. Pode ser que, como filme, Interestelar seja desequilibrado. Mas é uma experiência portentosa. Estética, humana. Política, como só Christopher Nolan, o grande, sabe fazer.

INTERESTELAR

Direção: Christopher Nolan.

Gênero: Ficção (EUA-Reino Unido/2014, 169 minutos).

Classificação: 12 anos.

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