'Interestelar' cresce à medida que adentra o mistério

Como espetáculo cinematográfico, filme de Nolan é irretocável

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2014 | 02h07

Há um cineasta - Ruy Guerra, para dizer seu nome - que acha a leitura da física contemporânea mais empolgante que a de qualquer romance. Não deixa de ter razão. Buracos negros, big-bang, Teoria das Cordas, para não falar das mais "tradicionais" e antigas Teoria da Relatividade e a Física Quântica, são temas mais do que capazes de excitar a imaginação humana. Mesmo a dos leigos, incapazes de nem sequer se aproximar da alta matemática exigida para a compreensão das teorias sobre o universo e as partículas. Nessa seara - meio filosófica, meio científica - Christopher Nolan vai cavar a matéria para seu novo filme.

Vamos dizer de entrada que, como espetáculo cinematográfico, Interestelar é irretocável, ainda mais se visto numa sala apropriada. Cada um pode escolher sua sequência favorita entre várias, mas uma das imbatíveis talvez seja a descida da nave em um planeta de mar aparentemente pacífico, mas de fato varrido por ondas da altura de montanhas. Todo o resto da trama funciona bem, inclusive na relação entre homens e máquinas, um dos pontos de diálogo com o ainda inatingível 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, ápice do gênero.

Da mesma forma que 2001, Interestelar cresce à medida que adentra o mistério. Ou seja, quando envereda por aquele confim do conhecimento humano em que as teorias científicas deságuam em questões metafísicas sobre a origem, o sentido da presença no Universo e o destino de cada um de nós, como indivíduos, e de todos nós, como espécie.

Neste ponto, ao lidar com teorias contraintuitivas sobre as noções imediatas de espaço e tempo, Nolan cede às tentações da explicação em excesso. Elas se dão, em especial, pelas palavras do protagonista, o astronauta Cooper (Matthew McConaughey), do velho cientista vivido por Michael Caine e da nova cientista, e filha de Cooper, Murph (Jessica Chastain, na fase adulta). Essa opção deixa os diálogos forçados, porque obviamente se destinam ao público e precisam garantir a adesão leiga ao inusitado daquilo que está sendo narrado. Há um momento problemático, em que o filme quase desaba pela pieguice do "só o amor constrói... etc". Por sorte, essa não é sua característica principal.

Tudo somado, é animador ver que o cinemão coloca de vez em quando seus recursos técnicos e financeiros a serviço da especulação humana. Ainda que exija, em contrapartida, concessões comerciais bastante perceptíveis no tecido da narrativa sob a forma de emoções baratas, e em especial, diluição das partes mais difíceis do conhecimento humano, pouco assimiláveis ao senso comum. É um belo e inteligente filme. Ainda que beleza e inteligência pareçam às vezes um tanto ostentatórias.

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