Divulgação
Divulgação

Instinto, talento e muita cara de pau marcaram a trajetória de Carlos Imperial

'Eu Sou Carlos Imperial' estreia neste fim de semana em São Paulo

Entrevista com

Renato Terra e Ricardo Calil

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2015 | 03h00

Os diretores de Eu Sou Carlos Imperial, Renato Terra e Ricardo Calil, responderam em conjunto a algumas questões do Estado sobre o filme, que estreia no festival É Tudo Verdade, neste fim de semana em São Paulo.

Como explicar o desconhecimento sobre a importância de Carlos Imperial, mesmo sendo lembrado quando se fala sobre a carreira de astros como Elis Regina, Simonal, Roberto Carlos etc?

Não sei se existe uma explicação simples para isso. O Imperial também foi apresentador de TV, tornou célebre o bordão "Dez! Nota Dez!" ao ler as notas das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, foi ator e diretor de cinema e, no final, conseguiu ser o vereador mais votado do Rio. Talvez seu jeitão polêmico tenha predominado e conquistado desafetos. Talvez sua capacidade de fazer mil coisas tenha dificultado a criação de uma gaveta para ele na história da cultura brasileira. A verdade é que não sabemos. Mas acho que essa maré de desconhecimento está prestes a virar. No musical e no filme sobre o Tim Maia, o Imperial tem papel importante. No musical sobre o Simonal, ele é o narrador. Acho que a biografia escrita pelo Denilson Monteiro foi o ponto da virada. Esperamos que o documentário contribua para jogar luz sobre essa figura essencial da cultura pop brasileira da segunda metade do século 20.

Aliás, como explicar também esse faro de Imperial para o novo que logo se tornaria popular e, em alguns casos, clássico?

Aí entra o instinto, o talento, uma sensibilidade para o marketing (quando essa palavra ainda não existia) e muita cara de pau. O interessante é que ele aliava esse faro com um projeto pensado, nos mínimos detalhes, para lançar um artista. Escolhia as roupas, o repertório. Em alguns casos, exigia que os cantores colocassem um lápis na boca e lessem textos para melhorar a dicção, outros tinham que ir para a praia se bronzear. Havia uma rotina Carlos Imperial para "formar o ídolo".

Imperial ainda é visto por alguns críticos e historiadores como um comerciante sem escrúpulos da música, um titereiro - como quando tentou emplacar Roberto Carlos como cantor da Bossa Nova. O que você pensa disso?

É uma visão redutora do Imperial. Ele era um grande compositor, um grande descobridor de talentos, um grande provocador cultural e também um grande ficcionista. Ele inventou uma persona pública para si e para os outros. Em alguns casos, a figura real e a persona inventada se fundiram: o Imperial cafajeste; o Simonal da pilantragem; a Clara Nunes sambista etc. Em outros casos, as carreiras dos artistas tomaram outros rumos: Elis não virou uma cantora de rock, Roberto não se tornou um cantor de bossa nova. Os erros e acertos de Imperial estão no documentário. Uma das virtudes do processo de filmagem de "Eu sou Carlos Imperial" foi a liberdade que tivemos. O filme não cria uma imagem idealizada, pasteurizada do Imperial. Mostramos as polêmicas musicais que Imperial se envolveu, como no caso em que registrou "Meu limão, meu limoeiro", canção de domínio público, em seu nome, por exemplo. Mas não dá para reduzir o Imperial a isso.

Em sua opinião, qual foi o grande momento de Carlos Imperial? E o pior?

O melhor foi o faro e a determinação para lançar o Roberto Carlos. Imperial levou Roberto a diversas gravadoras e conseguiu, com seu jeitão malandro, que Roberto gravasse seu primeiro disco quando ele estava prestes a desistir. Se não fosse o Imperial, talvez o Brasil não conhecesse aquele que se tornou o maior ídolo popular da música brasileira. O pior foi quando lançou o boato da cenoura que prejudicou o Mario Gomes.

Ao fazer pesquisas para o documentário, qual assunto foi o mais difícil de destrinchar? Por quê?

Acho que foi todo o lado politicamente incorreto do Imperial. Como abordar esse lado - a relação com as mulheres, as mancadas com os parceiros, as sacanagens com os inimigos - sem julgar ou glamourizar o Imperial? E, por outro lado, o que aprender com o anarquismo libertário dele? Foram questões muito presentes durante a pesquisa, a realização e a edição do filme.

Imperial foi multimídia antes de a internet surgir - trabalhou no rádio, fez TV, pornochanchada, teatro, lançou artistas, foi candidato político. É possível imaginar o que estaria fazendo hoje?

Possivelmente teria um canal no Youtube que causaria muita polêmica com os assuntos do momento.

Tudo o que sabemos sobre:
É Tudo VerdadeCarlos Imperial

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.