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Inspirado numa história real, ‘Encantados’ é o novo filme de Tizuka Yamasaki

Filme será exibido na terça-feira, 30, no Festival do Rio

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 16h00

Tizuka Yamasaki tinha um tema complicado para transpor para as telas. Uma história inspirada na pajé Zeneida Lima, nascida na Ilha de Marajó, no Pará. “Quando você fala de espiritismo, catolicismo, candomblé, as pessoas pressupõem alguma coisa, porque existe muita informação a respeito. Agora, quando você fala em pajelança cabocla, muita gente estranha, rejeita, não tem ideia do que seja”, observa a cineasta. 

Convencida de que, mesmo assim, valia a pena descortinar esse ‘Brasil desconhecido’, Tizuka foi fazendo ajustes no roteiro para torná-lo o mais palatável possível, sem cair na armadilha do didatismo. Foi necessário abrir mão de muito material para chegar a quase uma hora e meia de filme. Após anos dedicados ao projeto, a cineasta estreia Encantados na terça-feira, às 21h40, na abertura da Mostra Geração, dentro do Festival do Rio, com outra exibição na quinta-feira, às 13h40. O longa deve também participar da Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, em outubro. 

Ao ficcionalizar essa trajetória incomum, que já havia sido contada no livro O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, Tizuka optou por fazer um recorte na vida da personagem, concentrando-se no desabrochar de Zeneida. De menina para mulher. De garota comum a pajé. No filme, ela é interpretada por Carolina Oliveira, de Hoje é Dia de Maria (2005) e Ti Ti Ti (2010). “A Carol estava disponível para a gente, o que era importante. Ela passou por 4 meses de preparação, com aulas de capoeira, equitação, natação, carimbó”, conta Tizuka. 

Hoje com 19 anos, a atriz era uma menina na época das filmagens, no início da adolescência. “Tive sorte, porque a Carol estava com a idade de Zeneida. É um momento de virada da vida da personagem. Em alguns momentos, ela é muito menina, frágil e, em outros, muito forte.” 

Em Encantados, esse momento de virada é catalisado pelo amor que ela sente por Antonio (Thiago Martins), um ser da natureza, um encantado, um caruana, que conhece em Marajó. Zeneida sai de Belém e chega à ilha acompanhada de sua mãe Zezé (Letícia Sabatella) e seus sete irmãos – os oito são filhos ilegítimos do advogado Angelino (José Mayer). Ambicioso, ele despacha todos para sua fazenda, na ilha, para que fiquem longe dos olhos do povo e não atrapalhem sua carreira na política. A empregada Cotinha (Dira Paes) viaja junto – e faz as vezes de narradora do filme, que, segundo Tizuka, “entrou para intermediar o entendimento do espectador com aquela cultura”.

Lá, Zeneida, a mais velha da prole, passa a viver livre pelo local e a ter contato com Antonio, que só ela consegue enxergar. Destacado para proteger a garota das ameaças de Anhanga, entidade que pune quem desequilibra a natureza, ele desafia as leis da natureza ao se apaixonar por Zeneida. E ela, quanto mais influenciada por aquele entorno, mais perde a razão, entrando num estágio de desarmonia intensa. Condição que só pode revertida se cumprir seu destino se tornando pajé, o que seus pais rejeitam. Mas uma situação-limite faz com que a mulher e a pajé que existem dentro dela se imponham. 

A construção desse par romântico se deu a partir de uma livre adaptação de Tizuka. Na versão real, Zeneida, com essa mesma idade, havia se apaixonado por um rapazote que trabalhava como peão na região e com o qual queria se casar. Ela disse para ele pede-la em casamento para seu pai e lá foi ele, morrendo de medo. O pai dela negou o pedido. Ela, então, propôs que os dois fugissem. Ele, ainda com medo, se negou. “Pensei: ‘Como vou colocar um personagem tão interessante como ela com um personagem covarde como ele’. Conversando muito, a gente inventou o Antonio. E quem é que disse que não pode ter um romance desse?”, justifica a cineasta. 

Televisão. O roteiro não foi o único desafio que se impôs a Tizuka. Pensado originalmente para ser todo rodado no Pará, o projeto encontrou empecilhos logísticos na região, como dificuldades de deslocamentos. “Tudo é muito longe, difícil.” Isso obrigou que as locações fossem transferidas para outro lugar. A alternativa foi encontrar um cenário no Rio que remetesse, de certa forma, àquela paisagem da ilha. “Encontramos o (bairro) Marambaia. Como eu tinha ido muito a toda a região do Marajó, estava muito familiarizada com a paisagem de lá.” 

Além disso, Encantados demorou para ficar pronto. As filmagens ocorreram entre 2008 e 2009. Tizuka editou o longa, mas não tinha mais dinheiro para finalizar o projeto. Sem autorização da Ancine para captação de recursos, engavetou o projeto. “Estava com o filme rodado e editado, e, pela burocracia, eu não podia captar. Aí fiquei com muita raiva. Por dois anos, fui fazer outra coisa.” Nesse ínterim, rodou os filmes Xuxa em O Mistério de Feiurinha (2009) e Aparecida – O Milagre (2010), além de ter dirigido alguns episódios da série As Brasileiras (2012), da Globo. 

No ano passado, ela conviveu quase um mês com o candidato a presidente Eduardo Campos, morto em agosto deste ano, para gravar um programa para seu partido. “Fiquei baqueada com a morte dele, o País todo ficou.” Também no ano passado, ela decidiu retomar Encantados e o finalizou. 

Mas agora diz que vai se dedicar à TV. “Estou muito desconsolada com cinema, virou uma burocracia sem par. Estamos vivendo um momento que parece que cinema tem de ser comédia. Não existe mais espaço para você fazer filmes históricos, de conteúdo cultural. Se você não faz violência ou comédia, não tem espaço. Prefiro fazer televisão.”

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