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Insolação, ensaio poético sobre a utopia do amor

Filme é a primeira parceria no cinema entre Daniela Thomas e Felipe Hirsch

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

29 de outubro de 2009 | 11h12

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SÃO PAULO - Pouca gente no Brasil se arrisca ao cinema poético, aquele de narrativa metafórica, que prefere alusões e climas emocionais a histórias lineares e bem contadas. Uma exceção talvez seja Lina Chamie, habituée do "gênero" com filmes como Tônica Dominante e A Via Láctea. Juntam-se ao clube Daniela Thomas e Felipe Hirsch que codirigem Insolação.

 

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É uma parceria interessante. Daniela já tem diversas experiências de direção conjunta, com Walter Salles - Terra Estrangeira, O Primeiro Dia e Linha de Passe. Também trabalhou junto com Hirsch, no teatro. Agora experimentam esse filme a quatro mãos. Saiu bom, bonito, inspirado. Como diz o diretor estreante, Insolação é sobre "a paixão e outras utopias". Queriam filmar a melancolia do amor inalcançável. Esse, o sentimento. O palco: uma cidade vazia, Brasília.

 

E por quê? Porque o amor pode ser uma utopia, um não-lugar, pelo menos o amor completo, que se basta a si mesmo, capaz de colocar o mundo entre parênteses, como se apenas ele tivesse direito a existência. É o amor com que sonham os personagens de Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Maria Luisa Mendonça, entre outros. O grande Paulo José funciona como uma espécie de mestre de cerimônias, algo como a consciência crítica dessa ciranda de desejos. Mas o palco também é adequado porque Brasília, como o amor eterno e completo, é também uma utopia que fracassou. A cidade perfeita e justa de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer cresceu, criou suas periferias e para elas expulsou quem a havia construído. Ultrapassou limites populacionais e não é nem sombra daquilo que seus criadores haviam projetado.

 

De certa forma, o filme é sobre isso: sobre os sonhos humanos e de como eles se transtornam e se transformam em contato com as exigências da realidade. Mas Insolação, que é livremente baseado em contos amorosos da literatura russa do século 19, não defende essas contingências à maneira de tese. Apenas procura captar o clima da impotência humana diante da contradição inescapável: a grandeza dos desejos em relação à limitada capacidade para realizá-los. A beleza triste que emana da tela parece um comentário plástico dessa limitação.

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