Paris Filmes
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'Inseparáveis' é a versão argentina do sucesso francês 'Intocáveis'

Filme dirigido por Marcos Carnevale é estruturado como longo flashback

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 07h00

Inseparáveis é a versão portenha do sucesso francês Intocáveis. A história é a mesma - o relacionamento entre um tetraplégico e seu cuidador. De modo geral, essa relação é profissional, um tanto distante e reverente, quando não marcada pelo sentimento de piedade. A sacada do filme francês, de Eric Toledano e Olivier Nakache, é subverter essa expectativa. O relacionamento entre o handicapé Philippe (François Cluzet), e seu cuidador, Driss (Omar Sy), imigrante africano, era feito de irreverência e tornava-se uma convivência entre seres humanos. O que era tudo que o paciente desejava. Uma companhia estimulante, honesta, mais que um enfermeiro caridoso. 

A receita argentina não muda os ingredientes. Apenas altera sua dosagem e consistência. E, talvez, sua qualidade. Felipe (Oscar Martinez, de O Cidadão Ilustre) ficou paralisado do pescoço para baixo após uma queda de cavalo. É homem rico, sofisticado e, compreensivelmente, desesperado com a situação, tida como irreversível. Vive em sua mansão com uma entourage de secretárias e serviçais 

No processo de escolha do seu novo cuidador (eles não duram muito no emprego), sua atenção é voltada para um tipo rústico, que nem se candidatava ao cargo, o auxiliar do jardineiro da casa. Tito (Rodrigo de la Serna) interpreta o tipo popular falastrão, malandro, desbocado, mulherengo e pouco submisso a hierarquias sociais. Talvez o ideal para quebrar o tédio da existência de Felipe.

O filme, dirigido por Marcos Carnevale (de Coração de Leão: o Amor Não Tem Tamanho) é estruturado como longo flashback. As primeiras cenas são de um carro em alta velocidade. É pilotado por Tito, tendo ao lado Felipe. Fumam maconha, viajam em alta velocidade e, quando são parados pela polícia, Tito pode exibir seus dotes de embromador, para delícia de Felipe. 

Na sequência, vemos o processo de escolha do auxiliar e o início do relacionamento entre os dois. Nada difere muito da história do filme francês, a não ser alguns detalhes. Em Intocáveis, a amizade entre um milionário branco e um imigrante negro acenava para os problemas sociais e raciais da sociedade francesa, antigo império colonial que ainda custa em assimilar outras etnias e culturas à comunidade. Na versão argentina, essa ideia social se funda no problemático relacionamento entre uma elite europeizada e as camadas populares. O contraste é que dá a graça da história. Ainda mais porque contraste, aqui, não significa luta de classes, mas uma espécie de descobrimento mútuo (nesse sentido, o filme é apaziguador e desloca o conflito para a assimilação). Tito aprende muito com Felipe, mas este também recolhe os ensinamentos de Tito. No entanto, essa dimensão “social” é pouco desenvolvida. 

Também há o tom diferente, e nem poderia ser de outra forma, pois as culturas são distintas. No entanto, nessa adaptação, Carnevale optou por algo mais explícito, que chega ao limite da grosseria em determinadas ocasiões. Não sejamos moralistas. Um bom palavrão, dito no momento adequado, tem sua graça e autenticidade. O exagero, como o excesso de pimenta na comida, desanda a receita. É o que acontece vez ou outra. 

Talvez Carnevale pudesse ter usado mais sutileza em pontos problemáticos, como a ironia dirigida à cultura dita erudita (música e pintura, em especial), ridicularizada em favor de certa espontaneidade popular - que se poderia também chamar de “populista”. Esse é um subtema da história, o de que nada existe de sagrado a não ser a honestidade dos relacionamentos, estes muitas vezes encobertos pelo verniz civilizatório. 

De certa forma, o que a amizade entre Felipe e Tito aponta é para esse fundamento comum nas relações humanas, limitadas por diferenças sociais, culturais, etc. No fundo, há dois homens que se compreendem e se gostam, e isso é tudo, porque é o mais importante.

Apesar das limitações de estilo e técnica, Inseparáveis é um filme interessante para nossa época tribal. Na vida comum, e também nas redes sociais, buscamos apenas os que se parecem conosco ou pensam da mesma maneira do que nós. Bloqueamos os outros. A intolerância entre grupos, ao que parece, sempre existiu, mas em nosso tempo e, em particular, em nosso país, atinge grau jamais entrevisto no pior dos pesadelos. Perdemos a beleza e o enriquecimento recíproco das diferenças. Nesse sentido, a fábula de dois homens com tanto a separá-los, que se entendem e se complementam, é bastante inspiradora. Mais ainda quando se sabe ser baseada numa história da vida real. 

Ecofalante traz 100 filmes para discutir o mundo 

A Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental chega à sua 6ª edição com a proposta “cem filmes para discutir o mundo”. O evento propõe uma forma ampliada de ecologia, na qual questões sociais também são incluídas. Aliás, o homem, coitado, faz parte também do meio ambiente. Tanto que o homenageado deste ano é Vincent Carelli, diretor dedicado full time à causa indígena e que lança Martírio, contundente filme manifesto sobre o tema. 

O festival vai até dia 14 e apresentada 100 filmes, de 26 países, sendo 26 inéditos no Brasil e três em première mundial. Um dos grandes destaques, sem dúvida, é a estreia de Eis os Delírios do Mundo Conectado, do mestre alemão Werner Herzog (de Aguirre e Fitzcarraldo), um dos cineastas mais importantes da atualidade. Outro é o chileno O Vento Sabe que Volto à Casa, do chileno José Luis Torres Leiva, documentário premiado, de formato inovador.

 

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