"Inquietude": desconforto essencial

Inquietude é o título do belo filme de Manoel de Oliveira que entra nesta quinta-feira em cartaz. Título adequado, sem dúvida, para um longa-metragem composto por três histórias, entrelaçadas - logo por quem? - por um cineasta que diz detestar filmes de episódios. No entanto, as três tramas que funcionam como lâminas de um tríptico, encaixam tão bem que parecem formar uma só unidade. Todas têm um fundo estranho. E o conjunto que formam causa o leve desconforto da estranheza, que é uma das vertentes do prazer estético.Na primeira história, tirada de uma peça de teatro de Prista Monteiro, Os Imortais, há um diálogo misterioso entre dois personagens, pai e filho, ambos muito velhos. Discute-se aí a morte e a imortalidade, num crescente nonsense verbal que desconcerta o espectador. O tom é teatral mesmo, e o espectador, no final, verá que essa opção tem a sua razão de ser. Na segunda história, baseada em conto de Antonio Petrício, dois grã-finos recordam uma prostituta que conheceram, Suzy (Leonor Silveira), e está à morte. Tudo é contado em flash back, até quando um dos amigos, para consolar o outro, que fora amante da moça, narra um conto de Agustina Beça-Luís, A Mãe de um Rio. Dessa forma, as três histórias se entrelaçam de maneira natural. Tão natural que parecem ter sido feitas para isso.Não são apenas partes de um tríptico, sem nenhum significado especial. Pelo contrário. No primeiro, Oliveira fala sobre a morte; no segundo, sobre o sexo; no terceiro, sobre o conhecimento. Não é preciso concordar com as idéias de Reich para admitir que são as contingências básicas da existência: viver e depois morrer; amar, nesse espaço limitado entre o berço e a cova; aprender, nesse meio tempo, o que for possível saber sobre o mistério da existência. Daí, também, a mudança de registros entre as três partes. Farsesco na primeira, dramático na segunda, onírico na terceira.Daí a existência, em cada relato, já por si estranho, de um ponto irredutível ao saber. Em Os Imortais, a afirmação, reiterada por um dos personagens, que morrera "pela metade" - e que precisava morrer por inteiro, como se tivesse ficado paralisado naquele estado agônico descrito por Lacan como "entre duas mortes". Nem ser nem não-ser. O limbo. Em Suzy, o bordão da figura central: "É apenas um detalhe", falado às vezes em francês, "Juste un détail". Como se viver ou morrer, amar ou permanecer indiferente, fossem as mais banais das opções. No terceiro, o conto de Fisalina, a camponesa que quer deixar seu povoado mas para isso tem de aprender o segredo de uma feiticeira, que lhe recita Hesíodo em grego antigo.Tudo parece muito insólito. Mas, como sempre, a chave é deixar-se envolver pelo clima do filme. Não discutir com ele, nem resistir a ele, como não se discute ou se resiste a um sonho bom ou a um pesadelo. Não é demais imaginar a sombra de Fernando Pessoa pairando sobre a concepção geral da obra. Em especial, o Pessoa daqueles estranhos poemas dramáticos, como O Marinheiro, ou o Pessoa de O Livro do Desassossego. Este último, aliás, parece ser o parente mais próximo, em termos literários, de Inquietude.Uma afinidade que nada tem de forçada, bastando lembrar o caráter assumidamente literário do cinema de Manoel Oliveira. Trata-se de um artista que privilegia o papel das palavras na estruturação da obra de arte e nunca as coloca em antítese com as imagens. Acha que se complementam, e não tem nenhum receio de que o chamem de verborrágico. Prefere a verborragia à afasia.Mas também é claro que o cinema atual de Oliveira parece mais e mais, uma espécie de insolência para um tempo medíocre. Não por acaso, seu filme mais recente chama-se Palavra e Utopia. Esse trabalho sobre a vida e a obra de um mestre dos duelos verbais, como Vieira, não aparece por acaso. Ele vem numa seqüência de obras que parecem se postar na contra-corrente da contemporaneidade.Esse ar assumidamente démodé causa uma estranheza a mais. É como se Oliveira importasse personagens, palavras e imagens de um outro tempo. Num primeiro momento, é como se aquele pai e filho que dialogam sobre a morte não fizessem nenhum sentido para nós. Como não fazem aquela bela prostituta dos anos 30 ou a camponesa de dedos de ouro, perdida numa província improvável.Depois nos habituamos a eles. E, então, é como se Oliveira procedesse a uma lenta e eficaz faxina de campo e desobstruísse nossos sentidos embrutecidos pela tensão, pelo excesso de informações, pela superficialidade. Esse cinema não quer ser moderno porque aspira ser eterno, como dizia um poeta patrício da mesma estirpe. Vai além da estética porque toca na ética, numa posição radical diante da vida. Nem todo Oliveira é assim, mas um filme como Inquietude não pode ser definido como bom ou ruim. É, simplesmente, essencial.Inquietude (Id.) - Drama. Direção de Manoel de Oliveira. Por-Fr/98. Duração: 115 minutos.

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